Segundo aniversário

O dia tão esperado tinha chegado. Eu estava bem. Estava desejosa que a hora chegasse. Sentada no sofá, de punho fechado, com o estomago vazio de emoções, medos e ansiedade. Tinha acordado na mesma cama e na mesma casa que haveria vivido desde que nascera e ia acabar o dia ainda não sabia bem onde nem como. Este era, finalmente, o primeiro dia do resto da minha (nova) vida.

A noite anterior tinha sido de despedida da família. Algumas noites atrás, a última jantarada com os amigos mais chegados. Olhando para trás, não sei como lidei com tanta coisa com tanta frieza. Em momentos complicados o meu coração defende-se a sete chaves não para me defender mas para defender os que me rodeiam. O jantar com os amigos tinha sido de festa e acabou como qualquer outra noite no clube da terra, cada um indo para a sua casa calmamente. A noite anterior, que coincidência, era o aniversário da minha mãe. Ela estava inconsolável, mas queria aguentar-se forte. E conseguiu.

O dia haveria chegado. A casa estava silenciosa. Nós estávamos silenciosos. O último dia, o último almoço. Os meus avós vieram. Abraçaram-me muito e foram chorar para casa. Eu disse para não chorarem mas um passarinho disse-me que choraram a noite toda. Eu continuava firme, a sorrir, a dizer que nos iríamos ver em breve. Sabia lá eu se íamos, quando íamos. Tinha combinado com os meus pais que não me levariam ao aeroporto. Nunca fomos de chorar juntos e eu não queria chorar. Chorar para que? Tinha que estar contente, porque ia-me ser dada a oportunidade que muita gente gostaria de ter. Se chorasse ia-me estar a lamentar, e eu estava era agradecida pela nova vida que me iria ser proporcionada. Não queria que a última imagem dos meus pais durante meses fosse as minhas lágrimas, mas sim o meu sorriso de quem acreditava que tudo iria correr bem, e que esta era a escolha mais acertada.

Despedimo-nos com um abraço, a minha mãe com o coração nas mãos e o meu pai sempre mais recatado, a aproveitar os últimos momentos com a filha para lhe dar as recomendações: tem cuidado na rua, não te descuides com a alimentação, porta-te bem. Estas foram as últimas palavras. E ali fui eu. Via a minha casa, a minha terra a ficarem cada vez mais para trás.

Tinha sido forte nestes últimos dias, pois iria continuar a ser. A viagem começara. Jessica Fino, com 18 anos, dia 27 de Julho de 2011, dias depois da segunda fase dos Exames Nacionais do Ensino Secundário, com média de 16,4 valores, com o namorado há já um ano ao lado, rumava para o Reino Unido, sem sítio onde dormir nessa noite.

Enquanto o avião subia demos as mãos com força e prometemos um ao outro sermos felizes e nunca nos arrepender desta decisão. (A nossa história entretanto acabaria três anos depois. Sem dramas, sem rancor. Apenas com um carinho e uma tristeza muito grande)

Porque haveria? Tinha recebido a oferta da universidade há mais de seis meses, ia estudar aquilo que sempre sonhara estudar, na universidade onde a Daniela Ruah começou também o seu sonho. Não tinha de me preocupar com propinas e materiais escolares. Trabalho e casa haveria de aparecer.

Primeira foto tirada em Londres

A partir daqui todas as decisões foram nossas. Isso e trocar a minha casa de duas salas e cinco quartos por casas partilhadas por 7 pessoas com bolor e baratas e estúdios minúsculos. A trocar a comida da mamã por comida feita por nós com carne vinda de não sei de onde, legumes não frescos e fruta sem sabor. Habituar-nos a outra moeda, a outra língua. Fazer contas todos os dias. Não ser percebida, não perceber os outros, não se sentir incluída e muitas, muitas vezes, sentir-se sozinha e uma maria-ninguém.

Desde o dia 31 de Julho passamos por desemprego, riots a acontecer na nossa rua, assédio sexual, troca de casas, trocas de trabalho, dinheiro perdido, mal gasto… Tudo isto fez parte da nossa aprendizagem.

E todos, todos os dias é uma nova luta. Uma nova conquista. Um novo desafio.

Não há um dia que não me sinto culpada por deixar a minha avó 24 horas preocupada comigo, a minha mãe 25 horas por dia a sentir a minha falta, a perder os melhores anos da minha irmã, e não estar lá para ela.

Mas também não há um dia que não penso o quanto não me tornei mais próxima da minha família desde que cá estou, ironicamente. Falo mais com os meus pais e partilho mais coisas com eles do que quando vivíamos debaixo do mesmo teto. Não há um dia que sinto como mudei, para melhor, acho, como evolui de ideias e habilidades e como pessoa, sem nunca, nunca me perder.

Agora que tenho toda a liberdade, sou mais responsável do que quando não a tinha.

Dois anos numa terra que não me pertence nem me conhece. Dois anos. Não tenho noção se é muito ou pouco tempo. É o que é. Todos os dias com a vida incerta e instável. Sempre dura. Mas quem me conhece sabe que nunca perdi o sorriso. Nunca. Haja o que houver.

Obrigada à minha família, que sem as chamadas Skype não sei o que era de mim e sem as visitas o ânimo já tinha ido. Um dia hei-de compensar-vos. A todos.

Obrigada aos amigos que ficaram, que ainda se lembram, que saudades sentem. Obrigada cada vez que vos visito fazerem valer a pena.

Obrigada a todas as pessoas que me complicaram a vida. A todas as pessoas que disseram que não valia a pena. Que duvidaram. Que mal disseram. Que mal desejaram. Adoro contradizer e provar que eu tenho razão.

Obrigada Londres.

[25 de Julho de 2013]

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