Cresci de portas abertas, de ruas vazias, de paisagens verdes e ao som de pirilampos. Cresci a ver o Ti João passar com as ovelhas, o Ti Pedro encher litros e litros de água da fonte, da tias todas a meter a conversa em dia na rua. Cresci a dizer bom dia a toda a gente. Cresci a apanhar os pirilampos para dentro de uma caixa até aprender que eles assim morriam, pobres coitados. Cresci a ter periquitos, peixes, cães, e até uma galinha. Cresci a encontrar ovos que as galinhas escondiam tão bem, aquelas sacanas. Cresci a ver os meus tios a fazer morcelas (e nunca consegui gostar daquilo desde ai), cresci a ver a Ti Maximina a tirar o pelo dos coelhos, a minha avó a fazer pão e filhós.
Hoje compro frango do aviário (que não sabe a nada), coelho que e tão bom e eu gosto tanto nem vê-lo, o pão seca passado 2 horas, os únicos animais que vejo são cães dos vizinhos e raposas a roubar comer dos lixos. Hoje para além de não dizer bom dia a ninguém evito fazer contacto visual com qualquer pessoa no metro, para evitar parecer uma creepy. Hoje as pessoas à minha volta ficam chocadas quando conto que a ti Maximina tirava as entranhas dos coelhos à minha frente a explicar-me “isto e o fígado, isto e o intestino”, e que ficam chocadas quando digo que nunca tinha visto um judeu ortodoxo antes de vir para cá. Ou um muçulmano. Ou uma menina de Essex (essas e que são o verdadeiro fenómeno).
Mas o que mais mais mais saudades tenho? De uma noite estrelada.
Um céu estrelado e o cenário mais bonito mas a “fog” não deixa isto acontecer. Em noite de eclipse ou la o que e*, tudo que eu queria era um belo céu estrelado, uma noite quente, uma lua brilhante, e se não fosse pedir muito, isto tudo em plena praia, com o mar ali tão perto a molhar-me os pés.
Escrevi isto no dia do eclipse mas so me apeteceu publicar agora, depois de várias dias a ver fotos e videos dos meus amigos todos reunidos da festa da terrinha. Saudades. Mas esta quase.
[5 de Setembro de 2017]




