Quinto aniversário

Gosto de brincar e de me chamar de emigra, e gozo comigo própria por marcar férias em Agosto, em alinhar em ir à festa do emigrante e em comprar manteiga mimosa no supermercado tuga porque “a daqui não é igual”.

Vou gozando mas não há nada como o caldo verde que fizemos para os amigos no outro sábado à noite, não há nada como assistir ao mundial e chorar agarrados uns aos outros mesmo estando a celebrar num país que não é o nosso, que não percebe o que é isto de ser português, que não sabe cantar o nosso hino, que não veste a nossa bandeira como nós vestimos. Não há nada como começar a ver ali o estádio de Alvalade, a dar a volta ao Tejo, e começar a aperceber-me que por baixo de mim estará ali a minha família à minha espera para me levar para casa.

Mas depois há o outro lado, em que quando estou em casa sinto falta da minha outra vida. A minha vida real. Porque essa vida que eu levo quando vou de férias é a vida a brincar, e para trás deixei, por uns dias, a minha vida a sério. Longe de onde cresci, de onde tenho a minha família, do almoço de domingo na avó, dos cafés com os amigos, dos meus cães, da praia, do sol, e das estrelas. Por isso nunca estou completa.

A minha vida é cada vez mais esta, e cada vez menos a vida a brincar. Porque não podemos viver do sol, não podemos viver dos cafés. E é assim que eu ando faz amanhã de manhã cinco anos. Sempre com metade da minha vida noutro país. Sempre em falta de algo. Acho que sou sortuda por ter duas casas, dois países, no fundo quase duas famílias. Mas esta sensação de nunca estar completa é o preço que tenho de pagar.

Este país tem-me desiludido tanto mas dando-me tantas coisas boas ao mesmo tempo, que eu continuo a andar aqui a fingir que mando nisto. Os meus amigos ingleses dizem-me que sou um deles. E eu não quero ser um deles. Quero estar ao pé deles. Trabalhar com eles, ganhar o ordenado deles (ah ah), viajar como eles. Mas não quero ser eles.

Sou portuguesa. Tenho mimosa e Compal no frigorifico. Misturo português com inglês, já tenho o meu próprio dicionário, sou do Sporting e de mais clube nenhum, defendo a selecção como ninguém, sinto falta dos almoços na minha avó, dos serões no sofá da casa dos meus pais (ou de minha casa, porque continua a ser minha por muitos anos que passem), de dormir com a minha irmã, tenho sempre saudades de tudo e de todos,deito aquela lágrima marota a cantar o hino e a aterrar em Lisboa, e outra lágrima marota quando o avião sobe outra vez no sentido norte, enquanto me despeço mentalmente de todos os que deixei para trás.

Durante o dia falo, penso e escrevo em inglês. Mas amo em português e tenho a saudade tão portuguesa marcada no meu coração e na minha pele.

Para sempre.

Obrigada Londres por estes cinco anos incríveis.

E que seja o que deus quiser, mas principalmente o que eu quiser.

[26 de Julho de 2016]