O debate do EU referendum visto por uma imigrante

Há umas semanas estava eu com o meu senhor no hospital à espera da nossa vez depois de uma espinha malvada ter decidido alojar-se na sua garganta durante vários dias.

Como somos pessoal com muita sorte, um problema técnico no sistema informático do hospital naquele serão fez-nos estar a espera das 19:30 as 23:30. Saímos de lá uma hora depois.

Durante a nossa longa espera, um rapaz com uma entorse no pé, provavelmente farto de nos ouvir conversar numa língua que não inglesa, começa a barafustar que a culpa desta espera toda era da União Europeia, e que se saírem da UE isto acaba.

Ora esta teoria tem muito que se lhe diga. Primeiro, não é nada normal esperar muito tempo nas salas de espera dos hospitais. Coisa nunca vista. Segundo, de certeza que foi algum estrangeiro que chegou ali aos computadores, e como mal sabe falar ou ler inglês, encravou o sistema todo. Depois, obviamente que assim que votarem para sair, todos os imigrantes vão ser recambiados para os seus respectivos países, e se restarem alguns por engano, nunca ficarão doentes.

Acho incrível como esta gente pensa que não precisa de nós. Ou que nós devemos trabalhar e pagar impostos tal e qual como eles mas não devemos ter direitos básicos como serviços de saúde.

Se há muita mama? Há. Se há pessoal que vem para cá e se candidata logo para subsídios e começa a fabricar rebentos para ter mais regalias ainda? Claro que há, sempre houve.

Mas há certamente ainda mais escumalha inglesa a fazer isso do que estrangeiros. Não me venham com tretas, porque o vosso país não e tão perfeito assim!

Vim para cá por não acreditar no meu governo e por não me sentir encaixada na sociedade da inércia e de encolher os ombros e deixar andar.

Mas agora, mesmo antes de saber o resultado do referendo, sinto-me desapontada com o que tenho visto: um ataque constante àqueles que vivem cá, trabalham arduamente e pagam muitos impostos, talvez mais que muita gente por aí com passaporte britânico.

Mas não desisto. Se não fosse do meu próprio interesse que a economia prospere, torceria para que votassem para sair, só para depois verem em que buraco se tinham metido.

Vejo estupidez por todo o lado. Nestes últimos meses, tudo de mau neste país é culpa da união europeia e dos imigrantes, como se não precisassem de nós para os servir nos restaurantes, para lhes limpar os escritórios, para lhes construir as casas.

Esses a favor de sair da UE fazem sentir-me constrangida por escolher um país diferente daquele em que nasci, e gostava de ver esses na minha pele por um dia que fosse. Estar longe da família e dos amigos, da nossa comida, dos nossos sítios, escolher e adaptar-se a um país e a uma cultura nova, e depois ser acusada de encher hospitais, roubar empregos e custar demasiado dinheiro ao estado. Como se atrevem!

[20 de Junho de 2016]

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