(Never) afraid

Estou neste momento a ir para casa no comboio sozinha. Depois de um dia longo de trabalho, encontrei-me com a minha melhor amiga da universidade que já não via há algumas semanas.

Aqui o tempo voa e as pessoas andam sempre ocupadas. Se não falarmos durante duas ou três semanas, não faz mal. Tudo é compensado quando finalmente conseguimos arranjar um dia e pomos a conversa em dia.

Hoje a conversa acabou de uma maneira diferente. Enquanto acabávamos de comer o nosso take away, fomos vendo as notícias no telemóvel. Mais e mais notícias de Paris. Novas notícias de um estádio na Alemanha a ser evacuado. A minha amiga, que cresceu na Alemanha, olha para mim de olhos muito abertos a perguntar onde foi mesmo. Respira de alivio quando chega a conclusão que não conhece ninguém daquela zona. Ouvimos o hino francês a ser cantado no jogo da Inglaterra contra França por milhares de pessoas.

“Eu é que não ia a este jogo, fogo,” dizemos nós. E aí começamos a trocar ideias.

Porque haveríamos de deixar de fazer a nossa vida? Então mas agora vivemos a medo? Vou ter medo sempre que o metro parar, sempre que andar na rua, sempre que for a um concerto ou ao teatro ou ao futebol? Começamos a pensar nas hipóteses caso algo aconteça.

“E se eu não te consigo contactar?”

Começamos a pensar que não adianta fugir, porque até no trabalho algo pode acontecer. Se quando o atentado ao Charlie Hebdo o meu edifício foi posto em estado de alerta com seguranças e cadeado, hoje partilho o espaço e pertenço ao mesmo grupo que nada mais nada menos que o New Statement.

Nesse momento, recebo uma mensagem de uma amiga a perguntar se pode dar o meu contacto à mãe dela caso algo aconteça. Acho boa ideia e decido fazer o mesmo para a minha.

Mas que merda é esta? Que mundo é este em que vivemos neste momento?

Hoje apetece-me chorar. Sinto-me sufocada neste medo constante à minha volta, em que toda a gente olha desconfiada enquanto tentam fazer as suas vidas normais.

Que mundo é este, em que foi preciso a desgraça acontecer perto de nós para ficarmos alerta?

Hoje sinto medo não por mim, mas pelos meus. Não tenho medo que algo me aconteça, tenho medo por tanta gente que gosto, e por aqueles que cá ficam.

Hoje enquanto escrevo isto no comboio, as pessoas à minha volta olham fixadas para os ecrãs dos seus telemóveis. Sei bem o que estão a ler.

No entanto, digo que hoje fiz a minha vida normal e amanhã é um novo dia. O medo não me pára. E irei a concertos, e a teatros, e a jogos, e andarei de metro, e pelas ruas mais movimentadas. Gosto demasiado disto.

Não adianta ter cuidado. Não adianta evitar certos sítios. Não adianta deixar de viver a vida. “Eles tem armas, nós temos champagne.” Ou take away pizza. Ou as iluminações de Natal.

Hoje apetece-me chorar. Não por mim, mas pelo mundo em que vivo. Mas amanhã é um novo dia.

[17 de Novembro de 2015]

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *