Quando cheguei a Londres em 2011, tinha feito 18 anos há menos de três meses. A primeira casa onde vivi era partilhada com os seus donos. Eles eram um casal à espera de bebé, ela polaca e ele colombiano. À primeira vista pareciam um casal normal, apesar das diferenças culturais, eram calmos, limpos e simpáticos.
Um dia cheguei a casa e ele estava sozinho, ela ainda não tinha chegado a casa. Eu estava na cozinha e ele aparece de repente, aproxima-se demasiado perto de mim, e agarra-me. Não com força, mas aproxima-se cada vez mais, dizendo que tinha qualquer coisa no olho, e tenta beijar-me. Eu fujo para o quarto assustada, sem saber o que fazer, e em pânico visto que a porta ainda não tinha trinco (eles tinham ficado de colocar fechadura mas ainda não tinha). Sento-me na cama a tentar acalmar-me e ele bate-me à porta a perguntar se eu estou bem. Eu respondo a tremer que sim mas que estou ocupada. Felizmente ele não tenta mais nada.
Os dias a seguir foram passados a tentar fazer tudo e mais alguma coisa depois do trabalho até ser hora da mulher chegar a casa. Houve vezes que não tinha companhia ou para onde ir, então fiquei no metro, a ir de um lado para o outro sem destino, só a fazer tempo.
Devo ter ficado lá mais uma ou duas semanas. Eles entretanto foram de férias e eu mudei-me assim que pude.
Eu sei que não aconteceu nada de grave, e podia ter sido bem pior, mas as mãos deles em mim e a sua cara a aproximar-se da minha são imagens que nunca vou esquecer. Senti-me violada, suja, magoada. Senti-me ingénua por não ter percebido os sinais mais cedo (ele a passear de tronco nu pela casa, os olhares quando eu andava de pijama-calção, certas palavras). Senti-me ainda mais enjoada por ele ser uma pessoa casada e à espera de criança, e tentar agarrar uma miúda de 18 anos indefesa que vivia debaixo do seu tecto.
Tal como eu disse, foi um acontecimento que poderia ter tido um desenrolar bem pior, mas na altura tive semanas a sentir-me como se tivesse sido violada.
Este episódio vem à toa estes dias com as revelações de todas as mulheres que foram violadas e perseguidas pelo Harvey Weinstein.
É simplesmente inacreditável a cultura do silêncio em certos meios, principalmente em Hollywood, mas não só. Fico a imaginar o trauma com que aquelas raparigas todas ficaram para a vida, com o sufoco do segredo e com o medo das represálias que poderiam ter (ainda por cima!) se acusassem esta pessoa com tanto poder.
Parabéns a todas as pessoas que se chegaram à frente e contaram a verdade, mesmo sendo (demasiados) anos mais tarde.
Um balde de merda a todos aqueles que sabiam o que se passava e nunca fizeram ou disseram nada para proteger as vítimas, por cobardia e medo de serem prejudicados.
A minha esperança é que mais pessoas se sintam seguras o suficientes para condenarem e tornarem públicas situações semelhantes, seja quem for o atacante.
- “If all the women who have been sexually harassed or assaulted wrote “Me too” as a status, we might give people a sense of the magnitude of the problem.”




