O IEJ era um sítio especial. E todos aqueles que lá estudaram sabem do que falo. Mais do que uma escola, foi o sítio onde passámos mais tempo durante oito anos (eu seis porque nunca me aguentei muito tempo num sítio).
Para aquela que foi a última geração antes dos telemóveis com dados e dos youtubers e instagramers, foi um espaço onde crescemos com rigor e exigência, mas também um sítio onde pudemos fazer todos os desportos que quisemos, onde tinhamos clubes de tudo e mais alguma coisa, onde tinhamos espaço para brincar.
Posso dizer com toda a certeza que todos aqueles que passaram por lá ainda hoje tem muito cuidado com o calçado que levam ao ginásio, depois de anos a passar pela ditadura da sapatilha limpa da Sónia.
Quando entrei para lá no meu 5º ano era uma miúda tímida (acreditem ou não) e com aquela cara de croma com óculos fundo de garrafa redondos, e por isso claro que fui alvo de miúdos parvos, ou como se diz hoje: de algum bullying.
Naquele ano, o que me valeu foi o meu primo Samuel, vários anos mais velho que eu e que me protegeu, à maneira dele. Comecei a passar os intervalos com ele, e tornei-me amiga dos amigos cool dele.
Quando tive de voltar à escola um ano mais tarde, depois daquele verão em que ele já não estava cá, as pessoas trataram-me com cuidado, e desviavam o assunto quando eu chegava. Ninguém teve coragem de me perguntar nada, apenas um miúdo que me veio dizer que eu devia de estar muito triste.
A escola, nesse meu 6º ano, decidiu fazer uma cerimónia em honra dele e de todos aqueles alunos que já não estavam connosco. Eram centenas de alunos, e dezenas de familiares. A minha família veio, e eu cheia de vergonha, subi as escadas tentando esconder-me na multidão, tentando ser só mais uma aluna. Mas a minha avó chamou-me e pediu para me sentar ao pé dela.
Acredito que tenha sido uma cerimónia muito bonita. A escolar estava lá em peso. Tenho ideia que foi um dia especial, e todos os que lá estiveram devem ter sentido isso. Mas eu… eu fechei-me no meu mundo e não me lembro de nada. Não vi nada, não ouvi ninguém, não pensei em nada. Sentei-me ali quieta, calada e distante, contando os minutos para aquilo acabar. E continuei assim quando à saída os alunos fizeram um corredor para os familiares passarem, e muitos choravam e eu ali em pânico, a sentir-me observada, como se todos tivessem à espera que eu (finalmente) quebrasse. Apesar de não ter estado lá (apenas fisicamente), guardo esta cerimónia como a coisa mais bonita que aquela escola já fez, e por isso o meu obrigada.
Quem me dera voltar atrás e viver aquilo tudo, e chorar e me abraçar aos meus amigos, e agradecer aos professors e alunos que organizaram aquilo com tanto carinho, pois não havia ninguém naquela escola que não adorasse o Samuel.
Para além disto, foi no IEJ que conheci alguns dos melhores amigos que tenho até hoje. Apesar de estar longe de todos, são aqueles que ficam para sempre, e quando estamos juntos é como se nada tivesse mudado.
Tantas horas passadas a dar voltas à escola, onde cada grupo tinha o seu spot reservado. Havia toda uma logística que todos respeitavam. Voltas e voltas e voltas que davamos naquela escola, não sei bem com que objectivo.
Ainda bem que vivemos nesta altura, longe dos telemóveis, porque já tinhamos distrações suficientes mas que envolviam estarmos uns com os outros. O lado pior é que não temos grandes fotos ou vídeos para recordar, mas os melhores momentos ficam para sempre.
Tenho a agradecer aos professores que ficaram amigos (principalmente a Paula), ao Diamantino pelo doutoramento em codrelhice, à Sónia pela habituação à higiene do calçado, à s funcionárias Clara e Filipa pela amizade e tratamento preferencial ao fazer-me as tostas mistas e a guardar-me os melhores bolos, e à melhor turma de sempre que conseguiu organizar o dia da dança, provavelmente o dia em que fui mais feliz na escola.

Uma escola tem de ser mais do que um sítio onde és obrigada a ir estudar, tal como hoje em dia o trabalho tem de ser mais do que uma obrigação para ganhar dinheiro.
Bicho irrequieto que sou foi incapaz de passar oito anos naquela escola, cercada por portões e câmaras e por todo o lado. No 11º ano fui-me embora e, apesar de não ter passado tanto tempo como gostaria com os meus amigos de lá, foi graças a esta mudança que estou onde estou agora. Tudo está conectado. Eu tinha de ir para a Batalha. Fez-me ver a vida por outra perspectiva, tive mais liberdade e soube lidar bem com ela, podia ter corrido pior mas os meus pais conhecem-me melhor que eu e sabiam que podiam confiar (sabiam que não me ia portar pior do que eles se portavam quando tinham a minha idade).
Apesar da Batalha ter sido a decisão certa para mim naquela altura, o IEJ foi o sítio onde cresci, onde começei a traçar a minha personalidade e a definir quem ia ser. Muito aconteceu depois disso mas a infância a mim cheira-me aos croissants do bar, à sopa da cantina, tem o som da campainha a tocar, do Diamantino a chamar-me Saulinha, do Pedro e dizer cheira a farófias, tem a imagem da Joana a ser fã dos Tokyo Hotel, do Jorge sempre a passar som, da Carolina a falar de malandrices, da Tatiana com o aparelho, da Simone a dizer-me para limpar os óculos, do Nuno adorar as aulas de filosofia, do Ochoa ler Fernando Pessoa para um monte de desinteressados, do professor Manel a dar-nos chapad(inhas) nas costas, da Aida pedir-nos para não falar na biblioteca, do professor jeitoso de voleibol onde andei só para o ver, do professor Moisés que era o professor mais fixe que aquela escola já teve, e de novo da Paula que conseguia ter aulas mega produtivas e ainda nos dar lições de vida, e ajudar-me a entrar na universidade.
Beijinhos com saudade a todos estes cromos. E por favor, se tiverem videos ou fotos partilhem!
Faz este ano uma década que me fui embora daquela escola, e não percebo como o tempo passa assim, mas fico feliz que os que interessam ficaram e estamos todo a curtir a vida.





É tão bom recordar e saber que o tempo passa mas que os bons amigos continuam! Obrigada por este cantinho de leitura, que deixou aquela saudade louca. Tão bom, tão bom e tão verdadeiro. Um grande beijinho minha Jéss <3
Acredita, fizeste-me chorar. Embora a Joana não ficasse até ao final da escolaridade, ambas criamos laços fortíssimos com o IEJ. Foi uma parte da vida que aí ficou, e sei, foi também uma das partes mais importantes. Lembro-me de quase todos esses professores, mas essencialmente do profesdor Sérgio, tão importante no percurso da
Joana, Rita Milheiros, da qual continuo amiga, e professor Xavi, um fanático do basket, que formou grandes jogadores, grandes homens nos dias de hoje. A escola é realmente o sítio onde se cresce, não só em tamanho, mas como pessoa. Um bem haja a todos os que fizeram dessa escola, um sítio onde sempre irão ser depositadas saudades.