Essa cena de ser feliz

Ser feliz é uma coisa estranha. Precisamos de ter razões para o ser? Precisamos de ter alguém?

Precisamos de ter coisas? De estabilidade?

Ser feliz pode ser apenas sentir-se bem por dentro mesmo quando não há grandes razões para isso.

Temos medo de perguntar às pessoas se são felizes. Com medo da resposta, ou com receio de as fazer pensar se tem razões ou não para o ser.

A felicidade constrói-se todos os dias. Mas não podemos confundir felicidade com conformidade ou comodismo.

Muito de nós já cometemos esse erro. Pensamos que estamos felizes porque estamos estáveis, estamos confortáveis.

É quando saímos da nossa zona de conforto que descobrimos como ser feliz.

Às vezes é preciso perder tudo aquilo que pensávamos que nos deixava feliz para perceber que afinal estava a prender-nos e a bloquear-nos.

Podes ser feliz não tendo dinheiro para comprar roupa nova, sem ter namorado ou melhores amigos ao pé de ti. Podes feliz sem ter um trabalho 100% estável ou nas condições que mais querias. Podes feliz mesmo que não tenhas o corpo ideal ou que as coisas não corram todas bem.

Não é preciso ter razões para ser feliz.

O importante é sentir uma paz interior e uma esperança de que coisas boas virão. A felicidade da incerteza. A felicidade sem razão. Ser feliz só porque sim.

Aprender a gostar da nossa própria companhia.

[18 de Fevereiro de 2015]

Ser jornalista num dia como hoje

Há cerca de um mês foi-me pedido para escrever uma notícia sobre um ataque a uma escola paquistanesa em que uma centena de crianças foram baleadas por estudarem numa escola do exército nacional. Na altura fiquei tão enraivecida e triste com a notícia que fiquei o resto do dia a pensar naquilo. Fui para a casa de banho, sentei-me no tampo da sanita e fiquei ali a pensar. Como era suposto escrever os acontecimentos sem qualquer emoção, relatar os factos e pronto, limitar-me a ficar na esperança que alguém lesse as minhas palavras e se sentisse revoltado como eu. Andei o dia todo sem apetite e com vontade de chorar. Que tipo de pessoas são capazes de fazer uma coisas destas, perguntava-me eu. Eram apenas crianças.

Hoje o dia no newsroom estava caótico, pelo menos para mim. Estava cheia de coisas para fazer e precisava de ir fazer trabalho fora do escritório o quanto antes. Estava eu a tentar acabar um artigo que era suposto já ter sido publicado quando o meu editor me diz “Jessica, vê o alerta que recebemos no email. Quero que fiques responsável por isto. Escreve algo rápido agora e depois vai adicionando”. Na altura fiquei ainda mais irritada mas disse que sim e lá fui fazer isso ao mesmo tempo que o trabalho anterior.

A notícia de última hora era o tiroteio à sede da revista francesa Charlie Hebdo. Emails dos meus colegas de Espanha não paravam de chegar com videos, tweets, links. Escrevi a história, adicionei aquilo tudo e continuei a minha vida. Não sei como, mas nem raciocinei acerca daquilo que tinha acabado de escrever. Nessa tarde estive fora do escritório duas horas, voltei, e juntamente com outros colegas continuei a adicionar novidades ao artigo. Começava-se a comentar entre nós o sucedido, mas eu sempre alheia. “Isto é uma espécie de 11 de Setembro”, diziam uns. “Agora até se morre por fazer desenhos”, diziam outros.

Foi quando cheguei a casa e fui ler tudo como deve ser que finalmente caí em mim. Como era possível eu ter relatado os factos todos, adicionado fotos e videos não ter perdido tempo a ver os videos sequer; Não ter perdido tempo a pensar no significado de tudo isto?

Neste momento sinto um desconcerto cá dentro. Gostava de chorar e deitar tudo cá para fora mas não consigo. Aquela sensação de um murro no estomago, como quando alguém querido morre e tu estás naquela fase de dormência em que ainda estas a tentar perceber o que aconteceu e o que tudo significa.

É impossível não sentir revolta. Que mundo é este? Não era suposto a História nos ter ensinado que o ódio destrói nações e povos? Não era suposto por esta altura já termos aprendido a viver uns com os outros, aceitando todas as diferenças?

Estou revoltada comigo também, por ter andado o dia todo tão alheia, tão insensível a um acontecimento como estes.

Quero aqui dizer que os meus pensamentos estão com as famílias que perderam alguém hoje naquele ataque. São jornalistas e artistas como aqueles que perdemos hoje que o mundo avança. Hoje o mundo deu uns quantos passos para trás, mas quero aqui dizer que o trabalho daqueles que nos deixaram hoje vai ficar gravado para sempre, e que não morreram em vão.

Das coisas mais bonitas que ouvi até hoje e que guardo no meu telemóvel e oiço muitas vezes, foi um homem que veio à minha universidade falar de quando perdeu uma perna nos ataques terroristas no metro em Londres. Ele disse que os terroristas que conduziram o ataque queriam espalhar o ódio, mas o espírito de entre-ajuda que ele vivenciou naqueles minutos angustiantes dentro do metro e todo o apoio dos médicos, enfermeiros, colegas e família mostrou que o objectivo das explosões falhou redondamente, já que aquela experiência tinha criado um amor incondicional entre aquelas pessoas, para sempre.

Quero acreditar num futuro em que podemos criticar, satirizar ou mesmo brincar com assuntos mais delicados sem correr o risco de levar com um tiro nos miolos. Quero acreditar que todos aqueles que lutaram ao longo dos séculos pela liberdade de expressão e opinião não tenham lutado em vão. É a nossa vez de lutar por estes direitos que à partida pareceriam tão básicos em pleno século XXI.

Vamos parar com ódio, sim? Não quero viver num mundo assim.

[7 de Janeiro de 2015]

Segundo aniversário

O dia tão esperado tinha chegado. Eu estava bem. Estava desejosa que a hora chegasse. Sentada no sofá, de punho fechado, com o estomago vazio de emoções, medos e ansiedade. Tinha acordado na mesma cama e na mesma casa que haveria vivido desde que nascera e ia acabar o dia ainda não sabia bem onde nem como. Este era, finalmente, o primeiro dia do resto da minha (nova) vida.

A noite anterior tinha sido de despedida da família. Algumas noites atrás, a última jantarada com os amigos mais chegados. Olhando para trás, não sei como lidei com tanta coisa com tanta frieza. Em momentos complicados o meu coração defende-se a sete chaves não para me defender mas para defender os que me rodeiam. O jantar com os amigos tinha sido de festa e acabou como qualquer outra noite no clube da terra, cada um indo para a sua casa calmamente. A noite anterior, que coincidência, era o aniversário da minha mãe. Ela estava inconsolável, mas queria aguentar-se forte. E conseguiu.

O dia haveria chegado. A casa estava silenciosa. Nós estávamos silenciosos. O último dia, o último almoço. Os meus avós vieram. Abraçaram-me muito e foram chorar para casa. Eu disse para não chorarem mas um passarinho disse-me que choraram a noite toda. Eu continuava firme, a sorrir, a dizer que nos iríamos ver em breve. Sabia lá eu se íamos, quando íamos. Tinha combinado com os meus pais que não me levariam ao aeroporto. Nunca fomos de chorar juntos e eu não queria chorar. Chorar para que? Tinha que estar contente, porque ia-me ser dada a oportunidade que muita gente gostaria de ter. Se chorasse ia-me estar a lamentar, e eu estava era agradecida pela nova vida que me iria ser proporcionada. Não queria que a última imagem dos meus pais durante meses fosse as minhas lágrimas, mas sim o meu sorriso de quem acreditava que tudo iria correr bem, e que esta era a escolha mais acertada.

Despedimo-nos com um abraço, a minha mãe com o coração nas mãos e o meu pai sempre mais recatado, a aproveitar os últimos momentos com a filha para lhe dar as recomendações: tem cuidado na rua, não te descuides com a alimentação, porta-te bem. Estas foram as últimas palavras. E ali fui eu. Via a minha casa, a minha terra a ficarem cada vez mais para trás.

Tinha sido forte nestes últimos dias, pois iria continuar a ser. A viagem começara. Jessica Fino, com 18 anos, dia 27 de Julho de 2011, dias depois da segunda fase dos Exames Nacionais do Ensino Secundário, com média de 16,4 valores, com o namorado há já um ano ao lado, rumava para o Reino Unido, sem sítio onde dormir nessa noite.

Enquanto o avião subia demos as mãos com força e prometemos um ao outro sermos felizes e nunca nos arrepender desta decisão. (A nossa história entretanto acabaria três anos depois. Sem dramas, sem rancor. Apenas com um carinho e uma tristeza muito grande)

Porque haveria? Tinha recebido a oferta da universidade há mais de seis meses, ia estudar aquilo que sempre sonhara estudar, na universidade onde a Daniela Ruah começou também o seu sonho. Não tinha de me preocupar com propinas e materiais escolares. Trabalho e casa haveria de aparecer.

Primeira foto tirada em Londres

A partir daqui todas as decisões foram nossas. Isso e trocar a minha casa de duas salas e cinco quartos por casas partilhadas por 7 pessoas com bolor e baratas e estúdios minúsculos. A trocar a comida da mamã por comida feita por nós com carne vinda de não sei de onde, legumes não frescos e fruta sem sabor. Habituar-nos a outra moeda, a outra língua. Fazer contas todos os dias. Não ser percebida, não perceber os outros, não se sentir incluída e muitas, muitas vezes, sentir-se sozinha e uma maria-ninguém.

Desde o dia 31 de Julho passamos por desemprego, riots a acontecer na nossa rua, assédio sexual, troca de casas, trocas de trabalho, dinheiro perdido, mal gasto… Tudo isto fez parte da nossa aprendizagem.

E todos, todos os dias é uma nova luta. Uma nova conquista. Um novo desafio.

Não há um dia que não me sinto culpada por deixar a minha avó 24 horas preocupada comigo, a minha mãe 25 horas por dia a sentir a minha falta, a perder os melhores anos da minha irmã, e não estar lá para ela.

Mas também não há um dia que não penso o quanto não me tornei mais próxima da minha família desde que cá estou, ironicamente. Falo mais com os meus pais e partilho mais coisas com eles do que quando vivíamos debaixo do mesmo teto. Não há um dia que sinto como mudei, para melhor, acho, como evolui de ideias e habilidades e como pessoa, sem nunca, nunca me perder.

Agora que tenho toda a liberdade, sou mais responsável do que quando não a tinha.

Dois anos numa terra que não me pertence nem me conhece. Dois anos. Não tenho noção se é muito ou pouco tempo. É o que é. Todos os dias com a vida incerta e instável. Sempre dura. Mas quem me conhece sabe que nunca perdi o sorriso. Nunca. Haja o que houver.

Obrigada à minha família, que sem as chamadas Skype não sei o que era de mim e sem as visitas o ânimo já tinha ido. Um dia hei-de compensar-vos. A todos.

Obrigada aos amigos que ficaram, que ainda se lembram, que saudades sentem. Obrigada cada vez que vos visito fazerem valer a pena.

Obrigada a todas as pessoas que me complicaram a vida. A todas as pessoas que disseram que não valia a pena. Que duvidaram. Que mal disseram. Que mal desejaram. Adoro contradizer e provar que eu tenho razão.

Obrigada Londres.

[25 de Julho de 2013]

Mito, a pessoa mais triste do mundo

Pessoas aparecem nas nossas vidas de diferentes formas. Acredito que ninguém aparece por acaso, e até hoje toda a gente que conheci me ensinou algo, me mostrou algo, ou até mesmo mudou algo em mim.

A pessoa que mais me tocou nos últimos tempos, porém, é alguém como nunca antes me tinha cruzado. Essa pessoa mostrou-me o que é a tristeza, o que é a solidão, o que é a injustiça. Ela mostrou-me que ainda existe muito mal no mundo e que, às vezes, por muito que querias ajudar, nada podes fazer.

Mito nunca me disse a idade dela. Eu só queria saber o seu dia de aniversário, para lhe comprar um presente. Ela tinha vergonha de dizer. Colegas disseram-me que ela apenas não gostava de celebrar nem queria que ninguém celebrasse.

Mito foi a pessoa mais triste e mais misteriosa que conheci até hoje.

Senhora japonesa, idosa, desgastada com a idade. Olhar triste, sorriso apagado, corpo dormente, torto e sujo.

Disse-me, um dia, na conversa mais emocionante que alguma vez tive e que me deixou de lágrimas nos olhos, que tinha vindo para Inglaterra há quarenta anos e nunca voltara ao Japão. Nunca mais viu a sua família. Acredito que poucas vezes tenha voltado a falar com eles. Não estava autorizada.

Hoje, Mito não sabe se estão vivos ou não. Os pais, morreram pela lógica dos anos, mas ela nem essa noção tem. Possivelmente quer acreditar que eles ainda existem, apenas não à sua vista. Não sabe sequer se teria alguma família à sua espera no Japão, daí também nunca ter voltado. Mesmo se quisesse, não podia.

Tinha vinte anos quando disse adeus ao seu país e nunca olhou para trás. A família era contra. Mito foi atrás de um sonho, ia ser empregada de uma prestigiada família japonesa em Londres.

Demorou meses a chegar a Inglaterra, conta-me ela com um sorriso nostálgico, de quem relembra a viagem da sua vida. Viajou de país para país, de autocarro e de comboio. Atravessou o mundo por estes meios. Contava-me ela cada paragem. Lembrava-se de cada pormenor da viagem. Deve pensar nela todos os dias.

A sua patroa era uma cabeleireira num salão de luxo, especialista em cabelo japonês e permanentes. Famosa, contaram-me. Mito tornou-se a sua assistente, e com o tempo tornou-se também ela numa cabeleireira, mas sempre na sombra da sua patroa. Senhora Yokomoto, da alta sociedade japonesa, imperatriz, cruel.

Quando Yokomoto decidiu reformar-se, Mito continuou a fazer as suas clientes. Com o tempo, quase todos os clientes morreram de velhice. Mas ela continua ali, marreca, cansada, com dores, e de sorriso apagado. O ordenado não vai para ela, vai todo para a sua “dona”. Mito recebe cama e comida, nada mais. Depois de fazer os clientes da patroa, as lides domésticas esperam por ela em casa até de madrugada.

Todos os dias, quando Mito acaba o trabalho, eu tinha de ligar para a patroa e dizer que a Mito acabara o trabalho nesse momento e que se ia embora . Ao princípio não percebi o porquê deste telefonema ter de ser obrigatório e o porquê de não poder ser a Mito a falar. Depois foi-me explicado: se não ligássemos nós, a patroa pensaria que Mito tinha ido passear e não trabalhara. Assim podia calcular o tempo de ela chegar a casa e ter a certeza que ela não ia a lado nenhum. Uma vez disse ao telefone “she is going now home”. Mito ficou com os olhos muito abertos e disse-me “não podes dizer isso, já vou ouvir quando chegar. Ela diz que eu não vou para casa porque aquela não é a minha casa”.

Lembro-me de Mito a dormir em cima da comida dela. Lembro-me de a acordar lentamente, e ela ficar embaraçada, explicando que esteve a esfregar o chão e as paredes até as cinco da manhã. Disse-me uma vez que tinha de lavar as paredes todos os dias, e se a patroa decidia, mais que uma vez. Passava noites em claro a jardinar, a pintar janelas, a esfregar o chão.

As suas mãos estão pretas, secas, quase a cair. As suas costas estão completamente tortas, e Mito anda em forma de corcunda.

O que Mito passa há quarenta anos é pura escravidão, algo que me chocou por vivermos em pleno século XXI, de estarmos num país desenvolvimento e de ela trabalhar num salão supostamente de luxo.

“Mas nunca ninguém a tirou daquela vida? Ninguém fez frente a patroa?” perguntei eu uma vez a alguém.

“As clientes dela ao longo dos anos quiseram tirá-la de la, contratá-la, mas ela rejeitou sempre. Tinha medo da senhora Yokomoto.”

Mito mal sabe inglês, mesmo vivendo cá há quarenta anos. Os seus clientes são japoneses e quando tem uma hora livre é em ChinaTown que se refugia, a beber e a fumar. É difícil de a perceber, e muitas vezes quando lhe perguntava como estava ela respondia com um suspiro “tired. Cleaning cleaning. All night”.

Disseram-me que Mito passa muitas noites a beber. Não me admira, mas preocupa-me. Criei uma amizade especial com aquela senhora, que toda a gente naquele sítio se habituou a ignorar.

Ela corta e pinta o cabelo a ela própria porque não quer chatear ninguém e ninguém quer saber. Uma vez pintei-lhe o cabelo, lavei-o bem e sequei-o. Agradeceu-me emocionada o dia inteiro. Fi-la feliz naquele dia. Ficou tudo chocado com a minha atitude a partir daí toda a gente lhe queria arranjar o cabelo. Uma vez, uma das cabeleireiras cortou-lhe o cabelo como deve ser e ela ficou bonita.

No dia a seguir, Mito apareceu com o cabelo completamente arruinado e estava horrível. Yokomoto ficou com ciúmes e cortou-o de modo horrível e assimétrico. Mito chorava com pena dela própria e eu com pena dela.

Ela é muito pegada às coisas antigas, principalmente japonesas, mostrando as saudades que tem de casa. Fazia coleção de fotos da sua juventude, a postais com decorações japoneses, amostras de perfumes, tudo e mais alguma coisa. Uma vez chegou ao trabalho ainda mais triste que o normal. Contou-me que a patroa a tinha mandado por todos os seus pertences no lixo. Foi tudo para o lixo. Apenas salvou algumas amostras de perfume, que nos ofereceu, porque se a patroa as visse iam também para o lixo. Todas as fotos, todas as memórias, foram para o lixo porque a patroa quis.

Mesmo assim, Mito fazia-nos massagens quando via que estávamos com dores. Não queria massagens de volta, embora o corpo dela esteja completamente quebrado. Mesmo assim, ofereceu postais de natal a toda a gente, e estava constantemente a oferecer-me noodles e arroz japonês.

Os dois ou três dias que ela vai trabalhar no salão são os melhores dias da vida dela. Muitas vezes me pedia para dizer à patroa que tinha clientes até mais tarde só para poder ficar lá mais um bocado (a dormir e a fumar).

Desde que saí do salão, a pessoa que mais sinto falta é da Mito. A vida dela é uma completa solidão, e a solidão é a coisa de que tenho mais medo.

Tenho respeito por ela, e tenho muitas saudades dela. Preocupo-me com ela e penso nela mais vezes do que qualquer outra pessoa pensa, e isso é extremamente triste.

Quero honrar esta senhora, e um dia gostava de escrever um livro sobre a sua história completa. A sua viagem do Japão até Inglaterra, a sua vida nos últimos quarenta anos. Tenho a certeza que ela nunca consentiria tal coisa, mas este texto é uma forma de a honrar, e de, a partir de agora, mais alguém conhecer a sua história, e respeitá-la.

[23 de Março de 2013]

My purpose

As vezes ponho-me a pensar no quanto gosto de viver aqui, e sinto-me um bocadinho mal. Passo a explicar.

Não achei a adaptação a um novo pais difícil. Quando cheguei tive um verão espectacular, melhor tempo do que em Portugal. Quando veio o frio, não foi nada que me incomodasse. Ate parece que não passamos frio como o raio em Portugal. Alias, aqui estamos melhor protegidos do frio nas casas. Estão todas bem isoladas e o aquecimento já vem incluído.

O que mais me custou foi o facto de ter de partilhar casa com pessoas que não conheço. Mas não foi por isso que me pus a lamentar que em Portugal tinha um quarto so para mim e estava segura com a minha familia.

Irrito-me quando vejo pessoas que emigram e depois passam a vida a queixar-se, a choramingar, que vida tão difícil, ai mas eu sou tao corajoso. Bolas, se não têm estofo para isto, não venham. Se vêm para cá só por causa do dinheiro mas se ficam com o coração em casa não resulta. Precisa-se de fazer uma avaliação interior, do quanto queres estar aqui, se vale a pena, se consegues encontrar aqui a tua felicidade. Senão, faz as malas e volta. Ninguém deve estar num sitio onde não se sente feliz por opção.

Eu vim com as ideias certas. Portugal não servia para mim. Não queria ir para a universidade em Portugal. Para que? Nem no jornal local teria emprego. E todo o dinheiro que os meus pais iriam ter de inventar? E vamos encarar a realidade. Saímos do secundário como putos. Temos 17, 18 anos, so fazemos disparates, não sabemos nada da vida. Nunca ninguém trabalhou. Temos três anos para nos tornar-mos adultos e começar no mundo do trabalho.

Agora pergunto: como é que a universidade em Portugal nos forma como adultos em três anos?

Eu vim com um propósito. Vim para acabar estes três anos como uma jovem adulta, capaz de lutar por um lugar no mundo do jornalismo, aquilo que sempre quis fazer. Não pensem que aqui não é fácil. Já na universidade, sentimos a pressão. A competição. Se em Portugal não há emprego, aqui há emprego para os melhores. Para os mais criativos, para os mais trabalhadores.

Aqui não é fácil de todo. Mas sinto que estou a crescer. Claro que sinto falta da minha familia e amigos. Claro que tenho os meus momentos em que penso nas coisas e avalio o que vale e o que não vale a pena.

Mas sinto-me tão bem com as minhas decisões que não me sinto mal, e as vezes as pessoas confundem a minha segurança com frieza. “A serio que não tens saudades disto? Não gostavas de voltar?” Claro que tenho saudades, é a minha terra, a minha familia. E enquanto viver aqui vou fazer sempre tudo para ir a Portugal quantas vezes puder. E mesmo que o futuro me leve para outro lado, continuarei a faze-lo.

O importante é não esquecer o nosso propósito. E eu acredito que todo o esforço, todas as horas que já passei a trabalhar nesta terra, todas as aventuras que passei e todos os problemas que enfrentei me tornem numa pessoa mais forte, mais lutadora, mais resistente e mais bem sucedida.

[30 de Novembro de 2012]

O lado escuro da cidade cinzenta

Londres pode ser muitas vezes um lugar frio (não estou a falar da temperatura porque isso e obvio), solitário e vazio. Cada um anda por si, ninguém se preocupa com ninguém. Cada um faz a sua viagem sem reparar em ninguém. Nesta cidade tu es apenas mais um ser invisível. Es apenas um numero numa empresa qualquer em que nem sabes quem paga o teu ordenado, em que as pessoas com quem trabalhas mesmo que sejam simpáticas (quase) nunca serão (verdadeiramente) tuas amigas, onde a tua familia não vive junta, onde tens de partilhar casas com pessoas que não conheces, onde tens de te sentar num lugar onde hoje provavelmente milhares de pessoas se sentaram, onde sabes que nunca serás ninguém importante, que nunca veras a pessoa que esta a tua frente no metro jamais para o resto da tua vida. Não vale a pena seres simpática. Ninguém quer saber de ti. Ninguém te recompensa por fazeres um bom trabalho ou ficares a trabalhar mais uns minutos. Mas irão cair-te em cima no momento em que fizeres um mínimo descuido. E uma cidade em que não podes falhar em nada. Sabes que nunca poderás chegar atrasada a nada. Sabes que deves estar nas escadas sempre pelo lado direito, sabes que não deves tentar entrar no metro quando a porta tiver a fechar, sabes em que lado da calcada deves andar. E engraçado como as pessoas sabem como andar todas do mesmo sentido, fazer a curva da mesma maneira, tudo a um ritmo para que ninguém atrapalhe ninguém. Visto de cima, somos formigas a fazer filinha pirilau a 300 a hora. So os turistas e que estragam este sistema todo, e so atrapalham o pessoal (eu que o diga, que trabalho da Oxford Street). E uma cidade onde não vês ninguém a sorrir. Onde não vês ninguém a meter conversa com ninguém. Onde es tu por ti própria.

Esta e uma cidade que toda a gente ama, toda a gente gosta ou sonha visitar. E uma cidade com eventos, concertos, exposições, teatros todooos os dias, sem falha, onde a vida não para e tu acompanhas. Mas pode ser cinzenta, pode fazer-te sentir sozinha e fazer-te sentir que se perdes o ritmo estas tramada. Não importa o quanto cansada estejas, a quantidade de merdas que tiverem a acontecer na rua vida. a vida não para e e sempre em velocidade maxima. E hoje foi mais um dia assim.

[17 de Novembro de 2012]

Escrita criativa

No semestre passado tive uma cadeira de Escrita Criativa. Todas as semanas tínhamos de escrever algo relacionado com o tópico dessa semana na aula. Depois, tínhamos de ler diante da turma. Nessa semana calhou-me a mim apresentar a turma. Tinha de escrever algo sobre alguém que já tivesse partido. Pensei em alguém famoso. Pensei na minha avó ou no meu primo. Mas depois tive outra ideia. Aqui fica o texto traduzido para português:

“Morri há 22 anos atras. Eu sabia que ia morrer e achava que não merecia. Antes de morrer sabia que o meu marido estava com outra mulher, a minha empregada. Não queria saber porque estava quase a morrer e tinha coisas mais importantes para lidar: o meu filho de três anos, os meus irmãos, os meus pais. Eu não devia ter morrido. Desde então, a minha familia sofre em silêncio. Posso ver tudo de onde estou. Infelizmente, não posso fazer nada.

Depois de ter vindo para a casa de Deus, pedi-lhe que me enviasse de volta para a minha familia. Ele sabia a boa pessoa que eu tinha sido em vida. Ele disse que em três anos eu iria voltar a casa. Depois desses três anos, o meu irmão mais velho teve uma filha. Ela tem o meu sorriso, a minha bondade. Ela tem a minha paciência e sofre em silêncio como eu sofria. Ela ajuda a família e era a melhor amiga da minha mãe tal como eu era. Eu agradeci a Deus porque ele fez o que eu pedi.

Deus decidiu dar-me de volta o meu filho, 14 anos depois. Foi difícil para a minha família e foi difícil para mim. Eu sei que ele não lutou ao máximo para sobreviver depois do acidente porque ele queria vir ter comigo. Em vida, a minha sobrinha cresceu com as qualidades do meu filho. Ele deu-lhe as suas melhores partes. Desta maneira, o meu irmão ficaria com algo nosso.

A minha sobrinha foi feita para ficar algo nosso em Terra. Mas eles sofrem. Eles tem doenças e acidentes. O meu filho morreu com 17 anos. A minha mãe morreu um ano depois. Eu não me culpo, mas eu não devia ter morrido. A minha leucemia não morreu comigo. Foi transmitida para a minha mãe. Espero que tenha morrido com ela.

Felizmente, o meu irmão casou-se com uma mulher fantástica. Eu apenas a conheci 3 anos antes de ter morrido, mas ela passou todo o namoro deles em hospitais. Ela levou-me para todas as sessões de quimioterapia. Ela prometeu-me que iria tomar conta da minha família. E ela fez. Apoiou o meu irmão, a minha mãe e deu vida à minha sobrinha.  E a famiíia dela trouxe felicidade a minha. Ela é forte. Graças a ela o meu irmão aguentou tudo o que lhe aconteceu.

A minha sobrinha é uma mistura de todas as coisas más e boas das duas famílias. É forte e feliz como a mãe. Sossegada e inteligente como o pai. Bondosa como eu. Infelizmente, tem os meus problemas de sangue, os problemas de costas da mãe, os problemas de fígado do pai, os problemas de nervos como a avó.

Eu morri e ela nasceu. Acredito nisso. Ela sabe disso. O mundo só tinha espaço para uma de nós. Então eu deixo uma mensagem para ela: o meu filho está bem. Ele está comigo. Eu sei que provavelmente tu não acreditas mas quando ele morreu ele não desapareceu. Ele veio ter comigo, para me conhecer melhor. Mas ele ama-te e protege-te. Ele observa-te. Eu sei que sentes a falta dele e não percebes por que é que ele teve de ir, mas Deus está a tornar-te forte.”

 

A minha tia morreu 3 anos antes de eu nascer. Nunca a conheci. Neste texto, resolvi fazer algo diferente. Escrevi como se fosse ela a falar. Escolhi uma abordagem católica porque associo-a ao Céu. O meu professor disse, no final, que nunca ninguém tinha apresentado um texto assim. Deu-me os parabéns pela escrita mas principalmente pela coragem.

Confesso que estava a tremer. Tive de ler isto em voz alta, em inglês, em frente a uma turma de 20 e tal pessoas. O silencio era pesado. O texto gerou discussões. Todos me perguntaram se a história era real e quiseram saber mais. Eu fiz questão de explicar que o que está no texto não transmite a minha opinião das coisas, muito menos do que se diz de mim, muitas coisas foram pensadas para o propósito da escrita. Não quis que ninguém tivesse pena de mim porque coisas más acontecem a todas as famílias, e estas sobrevivem e reencontram a felicidade (nos somos muito felizes).

[26 de Setembro de 2012]

Os jovens e a religião

Este é um assunto que me tem posto a pensar nos últimos tempos.

Com tudo o que já aconteceu ao longo destes anos na minha família e comigo, sinto necessidade de pertencer a algo superior a mim. Sei que em muitas situações da vida ninguém me pode ajudar senão eu a mim mesma, e nesses momentos sinto necessidade de acreditar em algo maior que eu.

Acredito em Deus e respeito-o. Não sei o que significa ao certo. Não sei todas as especificidades deste Ser. A minha família e cristã católica e considero-me cristã também. Não sou praticante assídua mas quando sinto que preciso alguma ajuda espiritual procura à Igreja. Fui duas vezes à Igreja desde que cá estou. A primeira foi quando andava à procura de trabalho. A entrevista era dali a uma hora e vi uma igreja. Entrei. Não era católica, era ortodoxa, mas acredito que Deus esteja em todo o lado e não Se importa de eu onde esteja. Rezei, pedi para que me ajudasse a encontrar trabalho rapidamente, que a entrevista corresse bem. Não correu. Era para trabalhar num pub, fiquei uma noite à experiencia e não voltei porque odiei.

A segunda vez foi há pouco tempo. Andava triste e desanimada, e soube que uma senhora de quem gostava muito em Portugal faleceu. Pedi o dia a seguir de folga e fui com o Sérgio a uma Igreja Católica italiana. A missa era em italiano, por isso pouco ou nada percebi, mas o tempo que estive ali senti-me em paz. Senti-me bem por pertencer a um grupo que está presente por todo o Mundo. Muitas das pessoas na missa não sabiam italiano. Mas sabiam que o crucifixo na parede significa amor. Sabem que a hóstia é parte de Deus.

Os jovens da minha idade não querem saber disto. A missa é uma seca. A catequese é uma seca. Eu também já achei a catequese uma seca. Até que percebi que aquele encontro semanal tinha proporcionado novas amizades, a formação de indivíduos com uma fé e um espaço em que podias aprender algo diferente. E ter catequistas cativantes, interessantes e amigas ajudou também. A missa ao Domingo de manhã não tem jovens porque o Sábado à noite não é para ficar em casa para acordar cedo no dia a seguir. Compreendo. Não acho que temos de ir à missa sempre. Eu vou à missa quando sinto que preciso e que quero ir. Em Portugal, muitas das missas não são cativantes. Porquê? Falta novo sangue. Faltam mais jovens a tocar instrumentos e a cantar. Falta vontade.

Os jovens têm vergonha de dizer que vão à missa. Hoje vinha um artigo no jornal The Independent com o título “I have a confession to make: I go to church”. Foi este artigo que me fez escrever isto hoje. As pessoas têm vergonha porque acham que é coisas de velhos. Eu não acredito em tudo o que a bíblia diz. Sei que muitas passagens da bíblia são mitos, são metáforas para a vida. Todas as religiões contam-nos histórias que têm a sua fantasia ou que nunca vamos saber se foi assim mesmo. Mas não é assim em tudo à nossa volta? Até mesmo em relação de como estamos aqui? A bíblia ensinou-me que é importante ajudar o outro, que vale a pena ser bom e que quando estamos em dificuldades, algo de bom irá sempre acontecer porque nós merecemos (mesmo quando isso tarda em vir).

Não me vou alargar mais. Textos longos não agradam a muita gente mas eu tenho sempre muito a dizer e se este é o meu blog eu vou escrever aquilo que tenho a dizer. Quem não quiser, não leia. Quero apenas agradecer às catequistas que me souberam cativar (especialmente Maria e Eugenia), aos bons amigos que fiz na Igreja e aos bons momentos que tivemos na Igreja. E a ti se leste

[26 de Setembro de 2012]

A festa da terrinha

Amanhã começa a festa da minha terrinha. Desde pequena que este acontecimento é o mais importante na famosa Tremoceira. As terras de Portugal são curiosas porque cada uma tem direito à sua festa, em honra do seu padroeiro. Nunca tinha antes pensado neste aspecto peculiar das terras de Portugal. É suposto ser um acontecimento religioso, mas que nas ditas noites, há pouca santidade.

A festa demora meses a ser planeada. A maior parte da população colabora nos festejos, restando pouca gente para, de facto, celebrar. Por isso,há que atrair pessoas das terras à volta. A festa une a comunidade. Os miúdos arranjam cacos para a quermesse (exige muito mais trabalho e tempo do que se pode imaginar), os homens tratam do álcool e das bifanas, da música e da papelada; as senhoras idosas fazem bolos para vender, as de meia idade fazem comida e servem a mesa, os raparigas jovens e as solteiras ficam na sala de chá, onde servem o dito cujo e doces maravilhosos. E agora há a nova geração do pessoal de 20 e poucos anos que trata do after party com os DJ’s e as bebidas mais fortes.

Quando era mais pequena, o inicio de Setembro era altura de fazer umas madeixitas porque ia haver a festa. Era altura de comprar vestidos novos. Quando comecei a pertencer à quermesse era uma forma de me integrar no grupo dos “ grandes”. Passado uns anitos, quando já era uma dos “grandes”, passei a tomar conta daquilo. Era desculpa para ficar até mais tarde na festa. Depois há uma altura que já tenho autorização para ficar lá até querer porque, afinal, é a festa da terra. A festa pela qual esperamos o ano inteiro.

A festa é também uma forma de nos despedirmos do Verão. Estamos na nossa melhor forma: Agosto acabou mesmo agora e para trás estão férias, bronzes, boas formas físicas, amizades consolidadas e muitas histórias para contar.

É uma festa onde sabes que estás a ser controlada por toda a gente: pelas velhotas que vêem este fim de semana como uma fonte de muitas cusquices, pelos velhotes que gostam de ver as moças arranjadas, pelos pais e pelos tios, pelos amigos dos pais… Mas é um controlo temporário. Há medida que a hora avança, menos controlo há. Já podes beber uma cerveja sem correram rumores que és uma bebada; já podes tirar o casaco, dançar mais à vontade, e até mesmo cometeres a loucura de falar com rapazes à vontade.

Histórias engraçadas acontecem na festa da terrinha. Histórias que toda a gente acaba por saber no dia seguinte. E estes dias apenas voam rapidinho, e tu ficas o resto do ano a esperar que o primeiro fim de semana de Setembro chegue de novo. Não porque as férias de Verão estão a acabar, mas porque a despedida que temos é fantástica. A partir dai sabes que vais ver menos os teus amigos da terra, porque vais para a escolar e outros vão trabalhar e outros vão simplesmente ficar em casa. São quatro dias em que usas roupa nova, andas pela festa a sorrir e a cumprimentar toda a gente e tentas vender mais um bolinho mais uma rifa mais um sorteio de cartas à tia querida ou ao tio bebado.

É com pena minha que vou perder o segundo ano consecutivo das festas da minha terra. O meu colega de trabalho português dizia hoje “deixa lá, daqui a uns anitos já nem tem lembras quando é a festa”. Pois, I don’t think so! Vou sempre lembrar-me e vou sempre tentar (mais arduamente) ir.

Este ano, basta-me desejar que os meus queridos amigos se divirtam MUITO por mim, que os festejos tragam dinheirinho para a terra e que bebam muitas por mim!

[30 de Agosto de 2012]