Me too*

Quando cheguei a Londres em 2011, tinha feito 18 anos há menos de três meses. A primeira casa onde vivi era partilhada com os seus donos. Eles eram um casal à espera de bebé, ela polaca e ele colombiano. À primeira vista pareciam um casal normal, apesar das diferenças culturais, eram calmos, limpos e simpáticos.

Um dia cheguei a casa e ele estava sozinho, ela ainda não tinha chegado a casa. Eu estava na cozinha e ele aparece de repente, aproxima-se demasiado perto de mim, e agarra-me. Não com força, mas aproxima-se cada vez mais, dizendo que tinha qualquer coisa no olho, e tenta beijar-me. Eu fujo para o quarto assustada, sem saber o que fazer, e em pânico visto que a porta ainda não tinha trinco (eles tinham ficado de colocar fechadura mas ainda não tinha). Sento-me na cama a tentar acalmar-me e ele bate-me à porta a perguntar se eu estou bem. Eu respondo a tremer que sim mas que estou ocupada. Felizmente ele não tenta mais nada.

Os dias a seguir foram passados a tentar fazer tudo e mais alguma coisa depois do trabalho até ser hora da mulher chegar a casa. Houve vezes que não tinha companhia ou para onde ir, então fiquei no metro, a ir de um lado para o outro sem destino, só a fazer tempo.

Devo ter ficado lá mais uma ou duas semanas.   Eles entretanto foram de férias e eu mudei-me assim que pude.

Eu sei que não aconteceu nada de grave, e podia ter sido bem pior, mas as mãos deles em mim e a sua cara a aproximar-se da minha são imagens que nunca vou esquecer. Senti-me violada, suja, magoada. Senti-me ingénua por não ter percebido os sinais mais cedo (ele a passear de tronco nu pela casa, os olhares quando eu andava de pijama-calção, certas palavras). Senti-me ainda mais enjoada por ele ser uma pessoa casada e à espera de criança, e tentar agarrar uma miúda de 18 anos indefesa que vivia debaixo do seu tecto.

Tal como eu disse, foi um acontecimento que poderia ter tido um desenrolar bem pior, mas na altura tive semanas a sentir-me como se tivesse sido violada.

Este episódio vem à toa estes dias com as revelações de todas as mulheres que foram violadas e perseguidas pelo Harvey Weinstein.

É simplesmente inacreditável a cultura do silêncio em certos meios, principalmente em Hollywood, mas não só. Fico a imaginar o trauma com que aquelas raparigas todas ficaram para a vida, com o sufoco do segredo e com o medo das represálias que poderiam ter (ainda por cima!) se acusassem esta pessoa com tanto poder.

Parabéns a todas as pessoas que se chegaram à frente e contaram a verdade, mesmo sendo (demasiados) anos mais tarde.

Um balde de merda a todos aqueles que sabiam o que se passava e nunca fizeram ou disseram nada para proteger as vítimas, por cobardia e medo de serem prejudicados.

A minha esperança é que mais pessoas se sintam seguras o suficientes para condenarem e tornarem públicas situações semelhantes, seja quem for o atacante.

 

  • “If all the women who have been sexually harassed or assaulted wrote “Me too” as a status, we might give people a sense of the magnitude of the problem.”

Como correr Portugal numa semana

Muitas vezes quando pensamos em férias e em viajar pensamos não só nos sítios maravilhosos que vamos visitar mas também nos sítios onde vamos ficar. Acho que quanto mais velhos vamos ficando mais pensamos em conforto, em hotéis com boas localizações, boa comida, piscina, seja o que for.

Apesar de ainda ser bem novinha, longe vão os tempos em que acampava no festivais, onde só depois se montar a tenda é que percebia que ia dormir debaixo de uma pedra ou que o terreno estava inclinado.

E mesmo que não tenha muito dinheiro, gosto de ficar num sitio seguro, confortável, onde as pessoas sejam simpáticas e me dêem dicas sobre o local onde estou.

MAS, e se tivesse a opção de “ficar” num sítio que estivesse sempre em movimento? Onde pudesse parar todos os dias num sítio diferente, fazer os meus próprios churrascos, e adormecer a ver as estrelas?

Foi exactamente isso que fizemos este verão, e depois desta experiência acho que trocaria todos os hotéis de cinco estrelas do mundo por uma experiência destas todos os anos.

Com um casamento no fim de Junho em Portugal e nós branquinhos que nem lixívia, resolvemos ir uma semana antes para o nosso belo país e passar uns dias a descobri-lo. Uma vez que saí de Portugal com 18 anos confesso que ainda me falta muitooo para conhecer por este maravilhoso país.

Chegámos a Portugal no dia mais quente do ano (yeahhh) e estava simplesmente a derreter! Depois de almoço com os nossos respectivos irmãos, fomos buscar a nossa carrinha/quarto/hotel/cozinha/veículo de viagem à sede da Indie Campers.

Foi-nos dada uma carrinha acabadinha de chegar, com o design mais recente. Que sorte que tivemos!

A Bárbara foi super querida e ajudou-nos com tudo, explicou-nos como funcionava o tanque da água e da gasolina, deu-nos o nosso equipamento de surf (que não usei como era de esperar) e o material para fazer churrascos (que usei muito obviamente). Obrigada também ao Pedro, que descobri que era praticamente meu vizinho (o mundo é um bidé, como diz a minha tia) e que nos fez mega roteiro das melhores praias para visitar nos sítios onde íamos parar.

E lá fomos nós à aventura! Acabámos o dia a dar mega mergulho na Praia dos Galapinhos, na Arrábida, eleita a melhor praia do ano. Se é a melhor não sei, mas que soube bem um mergulho naquela praia ao fim do dia com 25 graus, isso soube.

Seguimos então viagem até ao nosso primeiro stop official: Porto Covo. Depois de um desvio porque Jessica Fino pôs no GPS “Porto Corvo” em vez de “Covo” e fomos parar a um café no meio do nada, chegámos aquela vila fantástica. Já era de noite quando lá chegamos, mas estava uma noite quente e ainda com alguma vida. Estacionámos a carrinha mesmo à beira mar e fomos passear. Apesar do calor desse dia, dormimos perfeitamente fresquinhos. A carrinha tem uma excelente isolação e dormi que nem uma bebé.

De manhã foi acordar, pôr o pé fora da carrinha e descer as escadas para a praia. Haverá melhor localização que esta? Acho que não.

Depois de uma manhã brutal na Praia dos Buizinhos, seguimos viagem para Mil Fontes, onde era suposto ficarmos a dormir mas depois de umas horas por lá decidimos seguir caminho para o próximo destino. Apesar de ter boas memórias de Milfontes e ser de facto muito bonito, tinha demasiada gente, e pessoas na praia a gritar “Jean Pierre, viens ici ou levas no focinho” (ficam com a ideia).

Seguimos então para Aljezur, onde fizemos umas compras e “acampámos” em Monte dos Clérigos. A ideia era jantar no restaurante de um amigo do Fábio, e assim foi. Chegámos lá e parecia que estávamos em casa. Metade das pessoas no restaurante eram conhecidas do Fábio que vieram de Santo Tirso para trabalhar no Verão. O jantar foi brutal. Mesmo à beira mar, exaustos mas felizes, bebemos uma garrafa de Muralhas e comemos um polvo divinal. Eu que não sou fã de polvo devorei aquele prato. O molho de beterraba foi uma excelente surpresa. Estava tão cansada que assim que cheguei a carrinha aterrei completamente (o vinho também pode ter contribuído). O restaurante chama-se O Sargo e recomendo mesmo mesmo vivamente.

Depois de outra noite muitooo bem dormida, acordámos desta vez ainda mais em cima da praia: a areia estava a 3 metros da carrinha. Por lá conhecemos surfistas de várias nacionalidades, pessoal que passa o verão por aquelas bandas, e muita gente que vinha ter connosco para falar sobre a nossa carrinha, ou porque já tinham alugado uma no passado ou porque estavam curiosos.

Depois de passar a manhã em Monte dos Clérigos fomos para um dos melhores sítios desta viagem: a Praia da Arrifana.

Ao chegar a Arrifana senti que tinha chegado ao destino que estava à procura. Ok, a descida para a praia é a pique, e a subida é beeem dolorosa depois de um dia de praia, mas vale tanto a pena!

O ambiente daquela praia é incrível, deu-me vontade de comprar ali uma casinha e viver ali o ano inteiro! Cheio de pessoas boa onda, parámos para almoçar no bar da praia umas belas pataniscas com arroz de tomate (o plano inicial era comer uma salada…). O nosso amigo Adolfo já tinha trabalhado naquele bar e reconhecemos o rapaz que nos atendeu do casamento dele o ano passado! (o mundo é um bidé, lá está)

Este dia na Arrifana foi dos melhores dias de praia da minha vida: água fantástica, areia quente, praia quase só para nós (tirando uma música ambiente de uns hipsters perto de nós que nos embalou para uma sesta), caminhadas à beira mar, mil mergulhos e mais uma sesta.

Esta seria a última noite pelo Alentejo/Algarve, então ao final do dia seguimos para Odeceixe, onde jantámos um franguinho assado do Pingo Doce à beira mar que nos soube pela vida.

A manhã seguinte foi passada a surfar (o Fabio) e a dormir em cima da prancha (eu). Antes de voltarmos para cima, almoçámos um peixinho grelhado fresco na aldeia de Odeceixe e bebemos uma garrafinha de vinho fresco (como o Fabio ia conduzir eu bebi dois quartos da garrafa, por isso a viagem a seguir foi muito animada para mim).

A meio da tarde chegámos à minha aldeia no distrito de Leiria, a Tremoceira. Passámos lá dois dias, e aproveitámos para passar pela praia das Paredes de Vitória, Agua de Medeiros, e no meu sítio preferido: a Nazaré.

Ora por esta altura era quinta-feira, e foi dia de subir mais um bom bocado para o Porto, onde entregámos a carrinha.  Já estava tão habituada àquela carrinha, que me custou despedir dela. Passei tão bons momentos graças a ela que a despedida foi difícil.

Rota completa numa semana:

Lisboa

Praia dos Galapinhos – Arrábida

Porto Covo

Vila Nova de Milfontes

Aljezur

Monte dos Clérigos

Arrifana

Odeceixe

Tremoceira

Paredes de Vitoria

Agua de Medeiros

Nazaré

Porto

Santo Tirso

Durante isto tudo visitámos família e amigos e fomos a um casamento em Santo Tirso!

Apesar da extensa lista de sítios que percorremos, não nos sentimos nada cansados nem stressados. Fomos nas calmas, mudámos de sítio sempre que nos apeteceu, parámos para dormir onde nos apeteceu, e pelo caminho conhecemos pessoas super boa onda e principalmente uma nova maneira de viajar!

Foi  uma experiência simplesmente espectacular que quero fazer mais vezes sem dúvida, idealmente pela Croácia ou Itália!

Recomendo vivamente passar uns dias com a Indie Campers!

Um muito obrigada ao Hugo, CEO da Indie Campers e irmão do Fabio, por nos ter emprestado a carrinha mais cool que tinha disponível. Tudo o que lhe posso dar em troca é um quarto pequenino em Londres por uns dias, mas cada um dá o que tem e pode, não é verdade?

Ser o Sábado e Domingo de alguém

Olá a todos! Comecei a escrever este post só porque me apetecia escrever e resultou em vários pensamentos dispersos e com pouca conexão  mas aqui vai na mesma.

Ha dois anos e meio conheci o Fabio. Pode não parecer muito, mas com ele já partilhei uma vida. Como a canção diz, “sei-te de cor”. E ele sabe-me ainda mais tim tim por tim tim.

Aqui ele é a minha familia. Ele é o meu sábado à noite, o meu domingo de manhã, o almoço de familia, a sopa quando estou doente, a companhia para jantar, o companheiro de filmes, o colega de limpeza, o meu melhor amigo e às vezes até aquele irmão mais velho irritante com a mania que sabe tudo.

Não quero fazer disto um texto lamechas, mas gostava que as pessoas percebessem que quando vivemos numa cidade grande e fácil sentir-se sozinho. E depois quando tens alguém que é a tua companhia todos os dias, essa pessoa torna-se a tua familia, o teu melhor amigo, o suporte que nem sabias que precisavas.

Por quase dois anos vivi sozinha em Londres, sem familia, sem namorado, sem grandes amigos. Felizmente lidei bem com esta “solidão” e soube aproveitar este tempo para fazer tudo o que me apeteceu: viajei o quanto pude, fui a dezenas e dezenas de concertos grátis durante a semana, fiquei em forma com muitas idas ao ginásio, fiz muitas caminhadas pelo este Londrino, sozinha, a observar  as outras pessoas e a sorrir ao pensar quanto sortuda eu era/sou.

A melhor imagem que eu tenho deste tempo mais solitário foi caminhar em Brick Lane num sábado à noite sozinha, a aproveitar o bom tempo daquele dia, a ver as pessoas a beberem copos. Caminhei calmamente nessa noite e disse para mim mesma que um dia seria eu ali, naquele bar, a beber copos com amigos, feliz. Naquele dia eu estava sozinha, não tinha dinheiro para copos nem amigos com quem os beber, mas estava entusiasmada com a ideia do futuro.

A pior imagem que tenho é de ser sexta feira e estar a ir para casa sem me apetecer, e correr a minha lista telefónica inteira a ver se encontrava alguém com quem pudesse ir ter um bocadinho antes de me enfiar no meu quarto pequeno de um metro até a segunda feira seguinte.

Pois desde então voltei aquele mesmo bar algumas vezes, quase todas com ele. Não voltei a precisar de correr a minha lista de contactos, porque tenho sempre companhia.

Sem aquele tempo que estive sozinha, de coração partido mas determinada e cheia de sonhos, não me tinha tornado na pessoa por quem ele se apaixonou.

Mas apesar de ter gostado desses tempos, não trocava estes por nada deste mundo.

O meu conselho para toda a malta solteira é este: aproveitem! Descubram o que gostam, quem realmente são. Porque às vezes estamos em relações e acabamos por adoptar gostos ou ideas da outra pessoa que podem não ser realmente aquilo que nós gostamos ou pensamos. Pensem no que realmente querem fazer, ser e pensar. Eu descobri que afinal gosto de coisas que teimava que não gostava só para ser do contra. Descobri que não gosto mesmo nada de Americanos (gandaaaa boca) e que as pessoas mais amigas e divertidas são as nortenhas.

Isto tudo para dizer o quê? Nada de jeito na realidade.

Ando muito ocupada porque vamos mudar de casa, daí ter parado um bocadinho. Já nem temos internet na nossa casa actual, por isso ainda mais complicado fica. Tenho alguns livros para partilhar convosco, incluindo o primeiro livro do clube de leitura que criei no meu escritório! O primeiro meeting é amanhã e espero que seja um sucesso! Estamos a precisar de algo social que não envolva beber ou jogar futebol.

Quando tiver internet (já na nova casa) vou partilhar o terror que é mudar de casa aqui! Vai ser só a sétima vez em seis anos, coisa pouca! 🙂

Preconceitos

Não consigo perceber, entristece-me e deixa-me irritada e desiludida estarmos em 2017 e ainda existir TANTA gente que não aceita coisas que deviam ser tão normais como homossexualidade e transgeneridade.

Isto é uma coisa tão simples (ou devia de ser) que me faz confusão porque é que há tanto ódio em relação a isto. Vamos la ver uma coisa: cada pessoa é diferente, ninguém é mais que ninguém, e cada um tem o direito de ser aquilo que bem quiser. E por aqui a conversa podia acabar.

Há espaço para todos neste mundo. Há espaço para brancos, pretos, homens, mulheres, cristãos, muçulmanos, gays, lésbicas, heteros. Há lugar para sportinguistas, benfiquistas, há lugar para quem não gosta de futebol, para quem não gosta de canela, para quem e alérgico a gluten, para quem e viciado em chocolate.

Sabem para quem e que não há espaço? Para racistas, xenófobos e preconceituosos. Para esses não há espaço nenhum.

Porque a orientação sexual de alguém, ou a religião ou a cor de pele são elementos daquilo que cada pessoa é. Sim, eu sou branca e heterosexual. Mas também sou filha, prima, irmã, sou jornalista, sou sportinguista, sou portuguesa, e mil e uma coisas mais. Não gosto quando alguém me define por “aquela com óculos”, e ninguém gosta quando nos definem por “aquela gorda, sabes?”, mas agora imaginem o que não deve magoar seres definido por ser “o preto”, “ o gay”, “o travesti”. Porque isso é só um aspecto de uma pessoa. Não é o que os define.

Para todos aqueles que dizem que homosexualidade é uma doença ou que travestis são freaks que transportam doenças, pensem no que fariam se um dia o vosso filho nascesse num corpo em que não se identificasse. Acontece, é  um desvio que acontece enquanto estamos dentro da barriga da mãe, em que na hora de definir o género algo corre ali mal (sou bue das ciências como podem ver, mas juro que ja li cenas sobre isto) e tu ficas com um corpo de um género mas não te encaixas nas noções  típicas do género em que o teu corpo nasce, é  isto. Não é uma mania, não é uma “ideia”, não é uma moda, é como nasceres sem um braço, ou cego, ou com um tomate a mais. Basicamente, é nasceres no corpo errado.

Imaginem se a vossa filha não gostasse de rapazes. Não gostava, pronto. Eu não gosto de atum, ja tentei de mil maneiras mas não gosto. Os meus pais deviam obrigar-me a comer atum? Deviam expulsar-me de casa se não comesse atum? Seria um bocado extremo, não acham? Então se a rapariga não gosta de rapazes, vão obriga-la a casar com um rapaz? Que diferença é que isso haveria de vos fazer? Certamente que o que pensam quando tem um filho é “Deus queira que seja saudável e feliz”, certo? E se ela for feliz com uma rapariga? Que é que isso interessa?

Olhem pronto, era só isto. Da próxima vez que virem alguém a dizer que o mundo está perdido com estas modas de “paneleiragens e fufarias” como eu vi hoje no Facebook alguém a dizer e até me deixou mal disposta, pensem que se calhar tem um irmão, um primo, um amigo, a sofrer há uma vida inteira por ter de esconder (parte) daquilo que é porque outras pessoas acham que se és diferente deles és doente.

Para mim, doente é odiar alguém porque prefere uma coisa em vez de outra. Porque se fosse assim, para mim todos aqueles que comem atum à garfada eram doentes.

(Foto: Dawn O’Porter © David Loftus)

Olá malta

Bem-vindos ao primeiro post deste novo blog. Como alguns devem saber, eu comecei um blog há vários anos enquanto andava na universidade em Londres. Foi um modo de continuar a escrever em português e de estar conectada com o pessoal desse lado. Ao longo dos anos fui recebendo feedback de amigos e também de conhecidos que me diziam que me gostavam de ler. E fui continuando. Mas depois a universidade começou a ocupar-me mais tempo, o trabalho também, e quando acabei os estudos a minha vida mudou de tal maneira que não sabia o que queria partilhar ou não. É difícil encontrar um balanço do que falar ou não falar, quando não fazes ideia de quem vai ler. Há coisas que não sabes se queres partilhar, e essas são aquelas que normalmente te ocupam mais a cabeça.

Agora que os anos nesta ilha vão aumentando e a minha vida é cada vez mais “inglesa”, sinto cada vez mais necessidade de escrever na minha língua-mãe. A verdade é que se não fosse ter um namorado português (mas nortenho, logo às vezes parece estrangeiro para mim), falar com a minha família todos os dias e seguir os comediantes portugueses nas redes sociais, a minha vida seria feita toda a inglês. Até a lista de compras escrevo em inglês (ou misturado, tipo “pasta, mushrooms and água), o meu trabalho é em inglês, metade dos meus amigos falam inglês e vejo/leio/oiço notícias, séries, filmes, livros em inglês.

Por isso este bestica é pt e não com ou co.uk, porque é a minha maneira de ser 100% portuguesa, pelo menos durante o tempo que cá passo.

Migrei os textos que mais gostei de escrever no antigo blog para aqui, e ao lerem estes posts do mais velho para o mais recente conseguem aprender um bocadinho do meu trajeto nos últimos cinco ou seis anos.

Seis anos podem não ser muita coisa, mas na minha vida e nesta cidade, são toda uma vida. Tanta coisa já se passou, tantas aventuras, tantos bons momentos, mas também tantos desafios e tanta merda (excuse my French). Se as pessoas soubessem metade do que já passei, diriam que eu devia escrever um livro. E porque não, talvez um dia? Foram seis (e em breve sete) casas em seis anos, foi um curso, foram cinco trabalhos, umas 50 entrevistas de trabalho, foi um coração partido, foram inúmeras visitas, várias viagens, a descoberta do maior amor, a criação de amizades para a vida, mas também o fim de várias. Enfim. Tanta coisa.

Pois com este novo blog espero encontrar um balanço daquilo que me interessa escrever mas também daquilo que vos possa interessar ler. Isto espero eu. Se for só a minha mãe a ler isto ta-se bem também.

Por isso pronto, bem-vindos, se quiserem ler mais sobre a minha pessoa leiam o meu texto no sobre mim e é isto. Ah, obrigada Matias pela ajuda no design. Foram algumas horas de tremenda paciência e de algumas discussões mas no fim ficou como eu gosto: simples, sem grandes merdices e catita (na minha opinião),

Saudades das estrelas

Cresci de portas abertas, de ruas vazias, de paisagens verdes e ao som de pirilampos. Cresci a ver o Ti João passar com as ovelhas, o Ti Pedro encher litros e litros de água da fonte, da tias todas a meter a conversa em dia na rua. Cresci a dizer bom dia a toda a gente. Cresci a apanhar os pirilampos para dentro de uma caixa até aprender que eles assim morriam, pobres coitados. Cresci a ter periquitos, peixes, cães, e até uma galinha. Cresci a encontrar ovos que as galinhas escondiam tão bem, aquelas sacanas. Cresci a ver os meus tios a fazer morcelas (e nunca consegui gostar daquilo desde ai), cresci a ver a Ti Maximina a tirar o pelo dos coelhos, a minha avó a fazer pão e filhós.

Hoje compro frango do aviário (que não sabe a nada), coelho que e tão bom e eu gosto tanto nem vê-lo, o pão seca passado 2 horas, os únicos animais que vejo são cães dos vizinhos e raposas a roubar comer dos lixos. Hoje para além de não dizer bom dia a ninguém evito fazer contacto visual com qualquer pessoa no metro, para evitar parecer uma creepy. Hoje as pessoas à minha volta ficam chocadas quando conto que a ti Maximina tirava as entranhas dos coelhos à minha frente a explicar-me “isto e o fígado, isto e o intestino”, e que ficam chocadas quando digo que nunca tinha visto um judeu ortodoxo antes de vir para cá. Ou um muçulmano. Ou uma menina de Essex (essas e que são o verdadeiro fenómeno).

Mas o que mais mais mais saudades tenho? De uma noite estrelada.

Um céu estrelado e o cenário mais bonito mas a “fog” não deixa isto acontecer. Em noite de eclipse ou la o que e*, tudo que eu queria era um belo céu estrelado, uma noite quente, uma lua brilhante, e se não fosse pedir muito, isto tudo em plena praia, com o mar ali tão perto a molhar-me os pés.

Escrevi isto no dia do eclipse mas so me apeteceu publicar agora, depois de várias dias a ver fotos e videos dos meus amigos todos reunidos da festa da terrinha. Saudades. Mas esta quase.

[5 de Setembro de 2017]

Mãe

Não tenho inveja daqueles que estão na praia, apesar de estar cheia de frio. Não tenho inveja daqueles que tem muito dinheiro, apesar de o dinheiro não me ser suficiente. Não tenho inveja de quem se veste bem. Não tenho inveja de quem tem uma casa melhor que a minha. Ou de quem vai aos restaurantes da moda. Ou daqueles que falam super bem outras línguas.

Tenho inveja daqueles que te podem dar um abraço hoje. Tenho inveja daqueles que te vão ouvir rir. Daqueles que vão ser tocados pela tua boa energia. Vou estar triste por não te dar algo a tua altura.

Não sei o que faria um dia sem ti. Não passa um dia que não fale contigo, que não desabafe contigo. Contigo sou eu 100% das vezes. Não consigo fingir que estou bem quando não estou. Mesmo quando não digo que algo me incomoda tu sabes que se passa algo. Sabes quando estou cansada. Sabes quando estou para ficar doente. Sabes quando o trabalho não esta a correr bem. Basta ligar o Facetime.

Não há ninguém que me conheça melhor. Tu ficas preocupada com a minha dor de cabeça dias depois desta passar.

Sei que de manha, antes de serem horas de te levantares, estas na cama acordada a acompanhar-me no meu trajecto diário na tua mente, a fazer-me companhia. Eu sei porque te sinto ali.

Tu estas sempre a espera que eu te ligue a hora do costume, sempre com a mesma alegria mesmo quando não estas bem. Podes estar cansada, doente, mal disposta, mas vais queixar-te do cansada que eu pareço, do quanto andei hoje, do que comi, em vez de te queixares das tuas dores.

Sei que farias qualquer coisa por mim. Um dia quando estavas ca pensaste em não voltar para ai. Mais que uma vez alias. Estavas disposta a deixar tudo para trás para ficar comigo. E eu nem sequer estou ai hoje contigo. As vezes esqueço-me de te avisar que não vou estar em casa e não atendo o telefone e deixo-te preocupada. Tu es a pessoa que mais gosta de mim e eu deixei a tua casa faz amanha 6 anos e passo cada vez menos tempo contigo. E o tempo passa e nos vamos ficando cada vez mais velhas e tu mesmo assim ainda não te habituaste.

Cada regresso e sempre doloroso e os beijos e abraços são sempre mais do que o aceitável num aeroporto. E as chegadas são sempre cada mais ansiadas. Esperas que um dia seja de vez. E eu não sei se alguma vez será. Não te vou prometer algo que não sei se se ira concretizar. Porque sou egoísta e principalmente teimosa. E enquanto não for bem sucedida o suficiente até te poder pagar férias e tudo o que mereces nunca vai (vou) ser suficiente.

Obrigada por nunca nunca nunca nunca me deixares de apoiar. Obrigada por, apesar de sofreres, me apoiares em todas as minhas decisões. Sem nunca duvidares de mim. Por, pelo contrario, acreditares demasiado em mim. Porque por ti eu consigo tudo. Basta querer. Basta tentar. Uma vez disseste me enquanto eu ainda andava a estudar: “Um dia vais trabalhar num destes escritórios ao lado destes ingleses todos.” Eu olhei para ti, ri-me e disse “achas..”. Pois agora sou eu deles.

Muitos parabéns mãezita, um beijo enorme do tamanho do mundo, e nunca deixes de acreditar porque no dia que deixares de acreditar eu também deixo.

[26 de Julho de 2017]

Quinto aniversário

Gosto de brincar e de me chamar de emigra, e gozo comigo própria por marcar férias em Agosto, em alinhar em ir à festa do emigrante e em comprar manteiga mimosa no supermercado tuga porque “a daqui não é igual”.

Vou gozando mas não há nada como o caldo verde que fizemos para os amigos no outro sábado à noite, não há nada como assistir ao mundial e chorar agarrados uns aos outros mesmo estando a celebrar num país que não é o nosso, que não percebe o que é isto de ser português, que não sabe cantar o nosso hino, que não veste a nossa bandeira como nós vestimos. Não há nada como começar a ver ali o estádio de Alvalade, a dar a volta ao Tejo, e começar a aperceber-me que por baixo de mim estará ali a minha família à minha espera para me levar para casa.

Mas depois há o outro lado, em que quando estou em casa sinto falta da minha outra vida. A minha vida real. Porque essa vida que eu levo quando vou de férias é a vida a brincar, e para trás deixei, por uns dias, a minha vida a sério. Longe de onde cresci, de onde tenho a minha família, do almoço de domingo na avó, dos cafés com os amigos, dos meus cães, da praia, do sol, e das estrelas. Por isso nunca estou completa.

A minha vida é cada vez mais esta, e cada vez menos a vida a brincar. Porque não podemos viver do sol, não podemos viver dos cafés. E é assim que eu ando faz amanhã de manhã cinco anos. Sempre com metade da minha vida noutro país. Sempre em falta de algo. Acho que sou sortuda por ter duas casas, dois países, no fundo quase duas famílias. Mas esta sensação de nunca estar completa é o preço que tenho de pagar.

Este país tem-me desiludido tanto mas dando-me tantas coisas boas ao mesmo tempo, que eu continuo a andar aqui a fingir que mando nisto. Os meus amigos ingleses dizem-me que sou um deles. E eu não quero ser um deles. Quero estar ao pé deles. Trabalhar com eles, ganhar o ordenado deles (ah ah), viajar como eles. Mas não quero ser eles.

Sou portuguesa. Tenho mimosa e Compal no frigorifico. Misturo português com inglês, já tenho o meu próprio dicionário, sou do Sporting e de mais clube nenhum, defendo a selecção como ninguém, sinto falta dos almoços na minha avó, dos serões no sofá da casa dos meus pais (ou de minha casa, porque continua a ser minha por muitos anos que passem), de dormir com a minha irmã, tenho sempre saudades de tudo e de todos,deito aquela lágrima marota a cantar o hino e a aterrar em Lisboa, e outra lágrima marota quando o avião sobe outra vez no sentido norte, enquanto me despeço mentalmente de todos os que deixei para trás.

Durante o dia falo, penso e escrevo em inglês. Mas amo em português e tenho a saudade tão portuguesa marcada no meu coração e na minha pele.

Para sempre.

Obrigada Londres por estes cinco anos incríveis.

E que seja o que deus quiser, mas principalmente o que eu quiser.

[26 de Julho de 2016]

O debate do EU referendum visto por uma imigrante

Há umas semanas estava eu com o meu senhor no hospital à espera da nossa vez depois de uma espinha malvada ter decidido alojar-se na sua garganta durante vários dias.

Como somos pessoal com muita sorte, um problema técnico no sistema informático do hospital naquele serão fez-nos estar a espera das 19:30 as 23:30. Saímos de lá uma hora depois.

Durante a nossa longa espera, um rapaz com uma entorse no pé, provavelmente farto de nos ouvir conversar numa língua que não inglesa, começa a barafustar que a culpa desta espera toda era da União Europeia, e que se saírem da UE isto acaba.

Ora esta teoria tem muito que se lhe diga. Primeiro, não é nada normal esperar muito tempo nas salas de espera dos hospitais. Coisa nunca vista. Segundo, de certeza que foi algum estrangeiro que chegou ali aos computadores, e como mal sabe falar ou ler inglês, encravou o sistema todo. Depois, obviamente que assim que votarem para sair, todos os imigrantes vão ser recambiados para os seus respectivos países, e se restarem alguns por engano, nunca ficarão doentes.

Acho incrível como esta gente pensa que não precisa de nós. Ou que nós devemos trabalhar e pagar impostos tal e qual como eles mas não devemos ter direitos básicos como serviços de saúde.

Se há muita mama? Há. Se há pessoal que vem para cá e se candidata logo para subsídios e começa a fabricar rebentos para ter mais regalias ainda? Claro que há, sempre houve.

Mas há certamente ainda mais escumalha inglesa a fazer isso do que estrangeiros. Não me venham com tretas, porque o vosso país não e tão perfeito assim!

Vim para cá por não acreditar no meu governo e por não me sentir encaixada na sociedade da inércia e de encolher os ombros e deixar andar.

Mas agora, mesmo antes de saber o resultado do referendo, sinto-me desapontada com o que tenho visto: um ataque constante àqueles que vivem cá, trabalham arduamente e pagam muitos impostos, talvez mais que muita gente por aí com passaporte britânico.

Mas não desisto. Se não fosse do meu próprio interesse que a economia prospere, torceria para que votassem para sair, só para depois verem em que buraco se tinham metido.

Vejo estupidez por todo o lado. Nestes últimos meses, tudo de mau neste país é culpa da união europeia e dos imigrantes, como se não precisassem de nós para os servir nos restaurantes, para lhes limpar os escritórios, para lhes construir as casas.

Esses a favor de sair da UE fazem sentir-me constrangida por escolher um país diferente daquele em que nasci, e gostava de ver esses na minha pele por um dia que fosse. Estar longe da família e dos amigos, da nossa comida, dos nossos sítios, escolher e adaptar-se a um país e a uma cultura nova, e depois ser acusada de encher hospitais, roubar empregos e custar demasiado dinheiro ao estado. Como se atrevem!

[20 de Junho de 2016]

(Never) afraid

Estou neste momento a ir para casa no comboio sozinha. Depois de um dia longo de trabalho, encontrei-me com a minha melhor amiga da universidade que já não via há algumas semanas.

Aqui o tempo voa e as pessoas andam sempre ocupadas. Se não falarmos durante duas ou três semanas, não faz mal. Tudo é compensado quando finalmente conseguimos arranjar um dia e pomos a conversa em dia.

Hoje a conversa acabou de uma maneira diferente. Enquanto acabávamos de comer o nosso take away, fomos vendo as notícias no telemóvel. Mais e mais notícias de Paris. Novas notícias de um estádio na Alemanha a ser evacuado. A minha amiga, que cresceu na Alemanha, olha para mim de olhos muito abertos a perguntar onde foi mesmo. Respira de alivio quando chega a conclusão que não conhece ninguém daquela zona. Ouvimos o hino francês a ser cantado no jogo da Inglaterra contra França por milhares de pessoas.

“Eu é que não ia a este jogo, fogo,” dizemos nós. E aí começamos a trocar ideias.

Porque haveríamos de deixar de fazer a nossa vida? Então mas agora vivemos a medo? Vou ter medo sempre que o metro parar, sempre que andar na rua, sempre que for a um concerto ou ao teatro ou ao futebol? Começamos a pensar nas hipóteses caso algo aconteça.

“E se eu não te consigo contactar?”

Começamos a pensar que não adianta fugir, porque até no trabalho algo pode acontecer. Se quando o atentado ao Charlie Hebdo o meu edifício foi posto em estado de alerta com seguranças e cadeado, hoje partilho o espaço e pertenço ao mesmo grupo que nada mais nada menos que o New Statement.

Nesse momento, recebo uma mensagem de uma amiga a perguntar se pode dar o meu contacto à mãe dela caso algo aconteça. Acho boa ideia e decido fazer o mesmo para a minha.

Mas que merda é esta? Que mundo é este em que vivemos neste momento?

Hoje apetece-me chorar. Sinto-me sufocada neste medo constante à minha volta, em que toda a gente olha desconfiada enquanto tentam fazer as suas vidas normais.

Que mundo é este, em que foi preciso a desgraça acontecer perto de nós para ficarmos alerta?

Hoje sinto medo não por mim, mas pelos meus. Não tenho medo que algo me aconteça, tenho medo por tanta gente que gosto, e por aqueles que cá ficam.

Hoje enquanto escrevo isto no comboio, as pessoas à minha volta olham fixadas para os ecrãs dos seus telemóveis. Sei bem o que estão a ler.

No entanto, digo que hoje fiz a minha vida normal e amanhã é um novo dia. O medo não me pára. E irei a concertos, e a teatros, e a jogos, e andarei de metro, e pelas ruas mais movimentadas. Gosto demasiado disto.

Não adianta ter cuidado. Não adianta evitar certos sítios. Não adianta deixar de viver a vida. “Eles tem armas, nós temos champagne.” Ou take away pizza. Ou as iluminações de Natal.

Hoje apetece-me chorar. Não por mim, mas pelo mundo em que vivo. Mas amanhã é um novo dia.

[17 de Novembro de 2015]