Os últimos seis meses

Já não escrevia fora do meu trabalho há muito tempo. Tanta coisa se passou desde a última vez, a vida não pára e todos os dias são uma montanha russa, e o tempo passa e o momento nunca parece o mais certo.

No entanto, há cerca de uma semana atrás encontrei uma troca de emails com uma amiga de há sete anos atrás, meses depois de ter vindo morar para Londres. Li os nossos emails com um sorriso nos lábios. Tanta coisa tinha mudado desde então, mas as miúdas que éramos continuava ali entre linhas, e a amizade continuava lá toda.

Parei de escrever no blogue não há sete anos mas há já vários meses e nem sei porquê. Desde então algumas coisas aconteceram desde então: fiquei noiva. Despedi-me. Comecei um novo trabalho.

Gostava de nos falar desde primeiro acontecimento que mencionei. Como sabem as pessoas que me conhecem, nunca foi um sonho meu casar-me, mas o corajoso do meu namorado decidiu arriscar e pedir-me em casamento da maneira mais bonita que eu poderia ter imaginado: num barco debaixo da ponte de Brooklyn, durante a minha viagem de sonho.

As nossas férias em Nova York já estavam a ser memoráveis, e o pedido no penúltimo dia nesta aventura foi mesmo a cereja no topo do bolo. Desde pequenina que sonhava em ir a NY mas pensava que isto não iria acontecer tão cedo. Foram dos dias mais felizes da minha vida, onde andamos kilómetros sempre sem horários nem pressa, a viver a cidade que sempre idealizei conhecer.

Diamond in the sky

 

Aquela viagem de barco foi a surpresa mais especial que já alguém me preparou. E agora, quase seis meses depois, digo que o mais especial para mim disto tudo foi o amor que foi preciso ter por mim para preparar tudo isto, desde a escolha personalizada do anel, ao planeamento da tour privada de barco, da logística de andar com o anel de Londres para Nova York, de casa da nossa amiga em New Jersey para o Airbnb em Brooklyn, até chegar o derradeiro dia.

Nunca pensei ter alguém que estivesse disposto a fazer isto tudo por mim, quanto mais alguém que de livre vontade quisesse assegurar-se que isto que temos é para a vida.

E por isto tudo eu disse que sim. E se nunca idealizei casar-me, a verdade é que o planeamento tem sido uma fase super gira e que me tem dado bastante gosto. É nesta fase que me apercebo ainda mais da pessoa que tenho ao meu lado, alguém que quer fazer parte de tudo, que se preocupa com muitos mais pormenores do que eu.

A vida realmente tem mais piada quando é partilhada, e nestes últimos dias em particular, que têm sido tão desafiantes e intensos, agradeço ter alguém à minha espera de braços abertos quando chego a casa.

Quando uma pessoa muda de trabalho muda também de vida. Durante os últimos três anos e meio trabalhei numa revista escrevendo sobre economia e finança. E eu adorava o meu trabalho, era das pessoas mais envolvidas na empresa, tendo criado o clube de leitura e fazendo parte do comité social (o pessoal que organiza as festas da empresa e tal). Mas já não me estava a sentir desafiada e a semana passada disse adeus aquela que era a minha família inglesa. Não foi uma decisão fácil mas foi necessária.

O meu último dia foi maravilhoso. Passaram o dia a tentar fazer-me chorar. Houve discursos, recebi imensas lembranças, cartas, mensagens, tive imensos almoços de despedida nas últimas semanas de trabalho e saí dali de coração apertado mas cheio, agradecida de tudo o que alcançei nestes últimos anos e das amizades que criei. Ainda hoje me emociono com o facto de podermos criar amizades tão fortes com pessoas que não partilham a mesma lingua, o mesmo background, a mesma cultura ou religião.

O Fábio foi à minha festa de despedida e adorei ver a forma como todos o trataram, como se também fosse família deles por terem ouvido tantas histórias sobre eles, sobre nós, ao longe destes anos. Quando íamos embora ele ainda me deixou mais com o coração nas mãos ao dizer: “eles gostam tanto de ti, não vais ficar cheia de saudades deles?”

Devia de tentar perceber porque é que estou sempre a ir embora de ao pé das pessoas que me querem bem…

Ainda não posso falar muito do meu novo trabalho porque hoje foi o meu terceiro dia, mas têm sido dias imensamente desafiantes, onde já aprendi imenso, paniquei bastante, mas percebi que era mesmo isto que estava a precisar.

To be continued…

Como correr Portugal numa semana

Muitas vezes quando pensamos em férias e em viajar pensamos não só nos sítios maravilhosos que vamos visitar mas também nos sítios onde vamos ficar. Acho que quanto mais velhos vamos ficando mais pensamos em conforto, em hotéis com boas localizações, boa comida, piscina, seja o que for.

Apesar de ainda ser bem novinha, longe vão os tempos em que acampava no festivais, onde só depois se montar a tenda é que percebia que ia dormir debaixo de uma pedra ou que o terreno estava inclinado.

E mesmo que não tenha muito dinheiro, gosto de ficar num sitio seguro, confortável, onde as pessoas sejam simpáticas e me dêem dicas sobre o local onde estou.

MAS, e se tivesse a opção de “ficar” num sítio que estivesse sempre em movimento? Onde pudesse parar todos os dias num sítio diferente, fazer os meus próprios churrascos, e adormecer a ver as estrelas?

Foi exactamente isso que fizemos este verão, e depois desta experiência acho que trocaria todos os hotéis de cinco estrelas do mundo por uma experiência destas todos os anos.

Com um casamento no fim de Junho em Portugal e nós branquinhos que nem lixívia, resolvemos ir uma semana antes para o nosso belo país e passar uns dias a descobri-lo. Uma vez que saí de Portugal com 18 anos confesso que ainda me falta muitooo para conhecer por este maravilhoso país.

Chegámos a Portugal no dia mais quente do ano (yeahhh) e estava simplesmente a derreter! Depois de almoço com os nossos respectivos irmãos, fomos buscar a nossa carrinha/quarto/hotel/cozinha/veículo de viagem à sede da Indie Campers.

Foi-nos dada uma carrinha acabadinha de chegar, com o design mais recente. Que sorte que tivemos!

A Bárbara foi super querida e ajudou-nos com tudo, explicou-nos como funcionava o tanque da água e da gasolina, deu-nos o nosso equipamento de surf (que não usei como era de esperar) e o material para fazer churrascos (que usei muito obviamente). Obrigada também ao Pedro, que descobri que era praticamente meu vizinho (o mundo é um bidé, como diz a minha tia) e que nos fez mega roteiro das melhores praias para visitar nos sítios onde íamos parar.

E lá fomos nós à aventura! Acabámos o dia a dar mega mergulho na Praia dos Galapinhos, na Arrábida, eleita a melhor praia do ano. Se é a melhor não sei, mas que soube bem um mergulho naquela praia ao fim do dia com 25 graus, isso soube.

Seguimos então viagem até ao nosso primeiro stop official: Porto Covo. Depois de um desvio porque Jessica Fino pôs no GPS “Porto Corvo” em vez de “Covo” e fomos parar a um café no meio do nada, chegámos aquela vila fantástica. Já era de noite quando lá chegamos, mas estava uma noite quente e ainda com alguma vida. Estacionámos a carrinha mesmo à beira mar e fomos passear. Apesar do calor desse dia, dormimos perfeitamente fresquinhos. A carrinha tem uma excelente isolação e dormi que nem uma bebé.

De manhã foi acordar, pôr o pé fora da carrinha e descer as escadas para a praia. Haverá melhor localização que esta? Acho que não.

Depois de uma manhã brutal na Praia dos Buizinhos, seguimos viagem para Mil Fontes, onde era suposto ficarmos a dormir mas depois de umas horas por lá decidimos seguir caminho para o próximo destino. Apesar de ter boas memórias de Milfontes e ser de facto muito bonito, tinha demasiada gente, e pessoas na praia a gritar “Jean Pierre, viens ici ou levas no focinho” (ficam com a ideia).

Seguimos então para Aljezur, onde fizemos umas compras e “acampámos” em Monte dos Clérigos. A ideia era jantar no restaurante de um amigo do Fábio, e assim foi. Chegámos lá e parecia que estávamos em casa. Metade das pessoas no restaurante eram conhecidas do Fábio que vieram de Santo Tirso para trabalhar no Verão. O jantar foi brutal. Mesmo à beira mar, exaustos mas felizes, bebemos uma garrafa de Muralhas e comemos um polvo divinal. Eu que não sou fã de polvo devorei aquele prato. O molho de beterraba foi uma excelente surpresa. Estava tão cansada que assim que cheguei a carrinha aterrei completamente (o vinho também pode ter contribuído). O restaurante chama-se O Sargo e recomendo mesmo mesmo vivamente.

Depois de outra noite muitooo bem dormida, acordámos desta vez ainda mais em cima da praia: a areia estava a 3 metros da carrinha. Por lá conhecemos surfistas de várias nacionalidades, pessoal que passa o verão por aquelas bandas, e muita gente que vinha ter connosco para falar sobre a nossa carrinha, ou porque já tinham alugado uma no passado ou porque estavam curiosos.

Depois de passar a manhã em Monte dos Clérigos fomos para um dos melhores sítios desta viagem: a Praia da Arrifana.

Ao chegar a Arrifana senti que tinha chegado ao destino que estava à procura. Ok, a descida para a praia é a pique, e a subida é beeem dolorosa depois de um dia de praia, mas vale tanto a pena!

O ambiente daquela praia é incrível, deu-me vontade de comprar ali uma casinha e viver ali o ano inteiro! Cheio de pessoas boa onda, parámos para almoçar no bar da praia umas belas pataniscas com arroz de tomate (o plano inicial era comer uma salada…). O nosso amigo Adolfo já tinha trabalhado naquele bar e reconhecemos o rapaz que nos atendeu do casamento dele o ano passado! (o mundo é um bidé, lá está)

Este dia na Arrifana foi dos melhores dias de praia da minha vida: água fantástica, areia quente, praia quase só para nós (tirando uma música ambiente de uns hipsters perto de nós que nos embalou para uma sesta), caminhadas à beira mar, mil mergulhos e mais uma sesta.

Esta seria a última noite pelo Alentejo/Algarve, então ao final do dia seguimos para Odeceixe, onde jantámos um franguinho assado do Pingo Doce à beira mar que nos soube pela vida.

A manhã seguinte foi passada a surfar (o Fabio) e a dormir em cima da prancha (eu). Antes de voltarmos para cima, almoçámos um peixinho grelhado fresco na aldeia de Odeceixe e bebemos uma garrafinha de vinho fresco (como o Fabio ia conduzir eu bebi dois quartos da garrafa, por isso a viagem a seguir foi muito animada para mim).

A meio da tarde chegámos à minha aldeia no distrito de Leiria, a Tremoceira. Passámos lá dois dias, e aproveitámos para passar pela praia das Paredes de Vitória, Agua de Medeiros, e no meu sítio preferido: a Nazaré.

Ora por esta altura era quinta-feira, e foi dia de subir mais um bom bocado para o Porto, onde entregámos a carrinha.  Já estava tão habituada àquela carrinha, que me custou despedir dela. Passei tão bons momentos graças a ela que a despedida foi difícil.

Rota completa numa semana:

Lisboa

Praia dos Galapinhos – Arrábida

Porto Covo

Vila Nova de Milfontes

Aljezur

Monte dos Clérigos

Arrifana

Odeceixe

Tremoceira

Paredes de Vitoria

Agua de Medeiros

Nazaré

Porto

Santo Tirso

Durante isto tudo visitámos família e amigos e fomos a um casamento em Santo Tirso!

Apesar da extensa lista de sítios que percorremos, não nos sentimos nada cansados nem stressados. Fomos nas calmas, mudámos de sítio sempre que nos apeteceu, parámos para dormir onde nos apeteceu, e pelo caminho conhecemos pessoas super boa onda e principalmente uma nova maneira de viajar!

Foi  uma experiência simplesmente espectacular que quero fazer mais vezes sem dúvida, idealmente pela Croácia ou Itália!

Recomendo vivamente passar uns dias com a Indie Campers!

Um muito obrigada ao Hugo, CEO da Indie Campers e irmão do Fabio, por nos ter emprestado a carrinha mais cool que tinha disponível. Tudo o que lhe posso dar em troca é um quarto pequenino em Londres por uns dias, mas cada um dá o que tem e pode, não é verdade?

Saudades das estrelas

Cresci de portas abertas, de ruas vazias, de paisagens verdes e ao som de pirilampos. Cresci a ver o Ti João passar com as ovelhas, o Ti Pedro encher litros e litros de água da fonte, da tias todas a meter a conversa em dia na rua. Cresci a dizer bom dia a toda a gente. Cresci a apanhar os pirilampos para dentro de uma caixa até aprender que eles assim morriam, pobres coitados. Cresci a ter periquitos, peixes, cães, e até uma galinha. Cresci a encontrar ovos que as galinhas escondiam tão bem, aquelas sacanas. Cresci a ver os meus tios a fazer morcelas (e nunca consegui gostar daquilo desde ai), cresci a ver a Ti Maximina a tirar o pelo dos coelhos, a minha avó a fazer pão e filhós.

Hoje compro frango do aviário (que não sabe a nada), coelho que e tão bom e eu gosto tanto nem vê-lo, o pão seca passado 2 horas, os únicos animais que vejo são cães dos vizinhos e raposas a roubar comer dos lixos. Hoje para além de não dizer bom dia a ninguém evito fazer contacto visual com qualquer pessoa no metro, para evitar parecer uma creepy. Hoje as pessoas à minha volta ficam chocadas quando conto que a ti Maximina tirava as entranhas dos coelhos à minha frente a explicar-me “isto e o fígado, isto e o intestino”, e que ficam chocadas quando digo que nunca tinha visto um judeu ortodoxo antes de vir para cá. Ou um muçulmano. Ou uma menina de Essex (essas e que são o verdadeiro fenómeno).

Mas o que mais mais mais saudades tenho? De uma noite estrelada.

Um céu estrelado e o cenário mais bonito mas a “fog” não deixa isto acontecer. Em noite de eclipse ou la o que e*, tudo que eu queria era um belo céu estrelado, uma noite quente, uma lua brilhante, e se não fosse pedir muito, isto tudo em plena praia, com o mar ali tão perto a molhar-me os pés.

Escrevi isto no dia do eclipse mas so me apeteceu publicar agora, depois de várias dias a ver fotos e videos dos meus amigos todos reunidos da festa da terrinha. Saudades. Mas esta quase.

[5 de Setembro de 2017]

Quinto aniversário

Gosto de brincar e de me chamar de emigra, e gozo comigo própria por marcar férias em Agosto, em alinhar em ir à festa do emigrante e em comprar manteiga mimosa no supermercado tuga porque “a daqui não é igual”.

Vou gozando mas não há nada como o caldo verde que fizemos para os amigos no outro sábado à noite, não há nada como assistir ao mundial e chorar agarrados uns aos outros mesmo estando a celebrar num país que não é o nosso, que não percebe o que é isto de ser português, que não sabe cantar o nosso hino, que não veste a nossa bandeira como nós vestimos. Não há nada como começar a ver ali o estádio de Alvalade, a dar a volta ao Tejo, e começar a aperceber-me que por baixo de mim estará ali a minha família à minha espera para me levar para casa.

Mas depois há o outro lado, em que quando estou em casa sinto falta da minha outra vida. A minha vida real. Porque essa vida que eu levo quando vou de férias é a vida a brincar, e para trás deixei, por uns dias, a minha vida a sério. Longe de onde cresci, de onde tenho a minha família, do almoço de domingo na avó, dos cafés com os amigos, dos meus cães, da praia, do sol, e das estrelas. Por isso nunca estou completa.

A minha vida é cada vez mais esta, e cada vez menos a vida a brincar. Porque não podemos viver do sol, não podemos viver dos cafés. E é assim que eu ando faz amanhã de manhã cinco anos. Sempre com metade da minha vida noutro país. Sempre em falta de algo. Acho que sou sortuda por ter duas casas, dois países, no fundo quase duas famílias. Mas esta sensação de nunca estar completa é o preço que tenho de pagar.

Este país tem-me desiludido tanto mas dando-me tantas coisas boas ao mesmo tempo, que eu continuo a andar aqui a fingir que mando nisto. Os meus amigos ingleses dizem-me que sou um deles. E eu não quero ser um deles. Quero estar ao pé deles. Trabalhar com eles, ganhar o ordenado deles (ah ah), viajar como eles. Mas não quero ser eles.

Sou portuguesa. Tenho mimosa e Compal no frigorifico. Misturo português com inglês, já tenho o meu próprio dicionário, sou do Sporting e de mais clube nenhum, defendo a selecção como ninguém, sinto falta dos almoços na minha avó, dos serões no sofá da casa dos meus pais (ou de minha casa, porque continua a ser minha por muitos anos que passem), de dormir com a minha irmã, tenho sempre saudades de tudo e de todos,deito aquela lágrima marota a cantar o hino e a aterrar em Lisboa, e outra lágrima marota quando o avião sobe outra vez no sentido norte, enquanto me despeço mentalmente de todos os que deixei para trás.

Durante o dia falo, penso e escrevo em inglês. Mas amo em português e tenho a saudade tão portuguesa marcada no meu coração e na minha pele.

Para sempre.

Obrigada Londres por estes cinco anos incríveis.

E que seja o que deus quiser, mas principalmente o que eu quiser.

[26 de Julho de 2016]

Quarto aniversário

Fazendo um balanço destes quatro anos que passaram, posso dizer que nunca me pergunto se tudo isto vale a pena. Nunca olho para trás. Nunca me deixo deitar abaixo pelas adversidades que vão acontecendo ou pelos desafios que aparecem.

Como a minha tia diz, há uma estrelinha lá em cima a cuidar de mim, e a impedir que as coisas descambem mais do que é preciso.

Para todos aqueles que me vêm dizer que não sabem como consigo, viver aqui sozinha, sempre a correr, sempre a mil, e mesmo assim sempre a sorrir, digo que não sou nem mais nem menos que os outros. Todos escolhemos, ou pelo menos gostava que assim fosse, a vida que queremos viver. Esta foi a que eu escolhi. No dia que não estiver bem, mudo-me. Nunca me acomodarei, nunca estarei num sítio onde não sou feliz. Nem tudo é fácil, mas isso é em todo o lado.

Estes ano que passou foi o melhor da minha vida, apesar de ter sido o mais difícil, e mesmo que tivesse todas as razões para ser o pior. E vejo o futuro com positivismo. Para aqueles que me dizem “estás como queres”, digo que não estou não. Neste momento quero mudar muita coisa, mas nunca me esquecendo de tudo o que aconteceu até aqui chegar. Tenho orgulho de tudo o que alcancei até agora, até das pequenas coisas, como acertar na quantidade de sal no arroz sem ligar à minha mãe. Já agora, feliz aniversário Mãe

Principalmente, sinto-me agradecida por todas as pessoas que conheci ao longo desta caminhada, dos desafios que me foram lançados e que consegui superar, das dificuldades que enfrentei com um sorriso na cara e àqueles que me deram a mão quando eu mais precisava.

Nestes quatro anos, que talvez pareçam mais, quero agradecer à minha família. Só eles sabem o que lhes custa eu estar tão longe, e sempre me apoiarem, nunca me pedirem (muito) para voltar, tentando sempre esconder o quanto gostavam que eu estivesse lá. A minha mãe, principalmente, que fica triste quando vê os meus amigos sairem para a praia sem mim, ou nas tasquinhas a beber sem mim. Tenho sido a filha mais egoísta de sempre, estando longe deles tanto tempo, e perdido tantos momentos da vida deles, principalmente da minha irmã.

Agradeço aos meus amigos que continuam a aturar-me, a contar-me as novidades da terra e a serem sempre os mesmos comigo. Não há nada melhor do que voltar ao clube da terra, beber um copo e falar das mesmas coisas que falávamos há cinco anos atrás, ter as mesmas piadas privadas, rir das mesmas coisas, discutir sobre os mesmos assuntos. Serei sempre a vossa Gina Wild.

Um agradecimento também a todos aqueles que vou conhecendo nesta grande selva, principalmente aos tugas, com quem sinto uma conexão tão grande e me fazem sentir em casa. Obrigada pelas churrascadas, pelas asneiras bem ditas, pela música pimba, pelas longas conversas como se fizessemos parte de um grupo de alcóolicos anónimos. Mas também aqueles que me vão aparecendo na vida vindos de diferentes partes do mundo, mostrando que somos mesmo todos iguais, e que podemos gostar de pessoas de outras culturas, religiões e ideologias completamente diferentes. Sou hoje uma pessoa mais tolerante, e capaz de amar alguém que não fale a mesma língua que eu ou que tenha crescido de maneira totalmente diferente de mim.

Obrigada a todos por fazerem parte desta grande aventura que é a minha vida. Amor é ter a capacidade de saber que a distância física é encurtada pela proximidade do coração.

Segundo aniversário

O dia tão esperado tinha chegado. Eu estava bem. Estava desejosa que a hora chegasse. Sentada no sofá, de punho fechado, com o estomago vazio de emoções, medos e ansiedade. Tinha acordado na mesma cama e na mesma casa que haveria vivido desde que nascera e ia acabar o dia ainda não sabia bem onde nem como. Este era, finalmente, o primeiro dia do resto da minha (nova) vida.

A noite anterior tinha sido de despedida da família. Algumas noites atrás, a última jantarada com os amigos mais chegados. Olhando para trás, não sei como lidei com tanta coisa com tanta frieza. Em momentos complicados o meu coração defende-se a sete chaves não para me defender mas para defender os que me rodeiam. O jantar com os amigos tinha sido de festa e acabou como qualquer outra noite no clube da terra, cada um indo para a sua casa calmamente. A noite anterior, que coincidência, era o aniversário da minha mãe. Ela estava inconsolável, mas queria aguentar-se forte. E conseguiu.

O dia haveria chegado. A casa estava silenciosa. Nós estávamos silenciosos. O último dia, o último almoço. Os meus avós vieram. Abraçaram-me muito e foram chorar para casa. Eu disse para não chorarem mas um passarinho disse-me que choraram a noite toda. Eu continuava firme, a sorrir, a dizer que nos iríamos ver em breve. Sabia lá eu se íamos, quando íamos. Tinha combinado com os meus pais que não me levariam ao aeroporto. Nunca fomos de chorar juntos e eu não queria chorar. Chorar para que? Tinha que estar contente, porque ia-me ser dada a oportunidade que muita gente gostaria de ter. Se chorasse ia-me estar a lamentar, e eu estava era agradecida pela nova vida que me iria ser proporcionada. Não queria que a última imagem dos meus pais durante meses fosse as minhas lágrimas, mas sim o meu sorriso de quem acreditava que tudo iria correr bem, e que esta era a escolha mais acertada.

Despedimo-nos com um abraço, a minha mãe com o coração nas mãos e o meu pai sempre mais recatado, a aproveitar os últimos momentos com a filha para lhe dar as recomendações: tem cuidado na rua, não te descuides com a alimentação, porta-te bem. Estas foram as últimas palavras. E ali fui eu. Via a minha casa, a minha terra a ficarem cada vez mais para trás.

Tinha sido forte nestes últimos dias, pois iria continuar a ser. A viagem começara. Jessica Fino, com 18 anos, dia 27 de Julho de 2011, dias depois da segunda fase dos Exames Nacionais do Ensino Secundário, com média de 16,4 valores, com o namorado há já um ano ao lado, rumava para o Reino Unido, sem sítio onde dormir nessa noite.

Enquanto o avião subia demos as mãos com força e prometemos um ao outro sermos felizes e nunca nos arrepender desta decisão. (A nossa história entretanto acabaria três anos depois. Sem dramas, sem rancor. Apenas com um carinho e uma tristeza muito grande)

Porque haveria? Tinha recebido a oferta da universidade há mais de seis meses, ia estudar aquilo que sempre sonhara estudar, na universidade onde a Daniela Ruah começou também o seu sonho. Não tinha de me preocupar com propinas e materiais escolares. Trabalho e casa haveria de aparecer.

Primeira foto tirada em Londres

A partir daqui todas as decisões foram nossas. Isso e trocar a minha casa de duas salas e cinco quartos por casas partilhadas por 7 pessoas com bolor e baratas e estúdios minúsculos. A trocar a comida da mamã por comida feita por nós com carne vinda de não sei de onde, legumes não frescos e fruta sem sabor. Habituar-nos a outra moeda, a outra língua. Fazer contas todos os dias. Não ser percebida, não perceber os outros, não se sentir incluída e muitas, muitas vezes, sentir-se sozinha e uma maria-ninguém.

Desde o dia 31 de Julho passamos por desemprego, riots a acontecer na nossa rua, assédio sexual, troca de casas, trocas de trabalho, dinheiro perdido, mal gasto… Tudo isto fez parte da nossa aprendizagem.

E todos, todos os dias é uma nova luta. Uma nova conquista. Um novo desafio.

Não há um dia que não me sinto culpada por deixar a minha avó 24 horas preocupada comigo, a minha mãe 25 horas por dia a sentir a minha falta, a perder os melhores anos da minha irmã, e não estar lá para ela.

Mas também não há um dia que não penso o quanto não me tornei mais próxima da minha família desde que cá estou, ironicamente. Falo mais com os meus pais e partilho mais coisas com eles do que quando vivíamos debaixo do mesmo teto. Não há um dia que sinto como mudei, para melhor, acho, como evolui de ideias e habilidades e como pessoa, sem nunca, nunca me perder.

Agora que tenho toda a liberdade, sou mais responsável do que quando não a tinha.

Dois anos numa terra que não me pertence nem me conhece. Dois anos. Não tenho noção se é muito ou pouco tempo. É o que é. Todos os dias com a vida incerta e instável. Sempre dura. Mas quem me conhece sabe que nunca perdi o sorriso. Nunca. Haja o que houver.

Obrigada à minha família, que sem as chamadas Skype não sei o que era de mim e sem as visitas o ânimo já tinha ido. Um dia hei-de compensar-vos. A todos.

Obrigada aos amigos que ficaram, que ainda se lembram, que saudades sentem. Obrigada cada vez que vos visito fazerem valer a pena.

Obrigada a todas as pessoas que me complicaram a vida. A todas as pessoas que disseram que não valia a pena. Que duvidaram. Que mal disseram. Que mal desejaram. Adoro contradizer e provar que eu tenho razão.

Obrigada Londres.

[25 de Julho de 2013]