Coisas que a minha irmã aprendeu num mês em Inglaterra

Neste último mês tive como hóspede a minha irmã mais nova. Veio chatear-me o juízo aproveitar esta pausa entre licenciatura e mestrado para ganhar uns trocos e praticar o inglês, antes de rumar ao Algarve e poder comunicar na língua local nos bares e restaurantes.

Com esta sua aventura quase a acabar dentro de dias, tomo a liberdade de partilhar o que ela aprendeu durante este mês.

 1. Tens de lidar com pessoas de todos os tipos e feitios

Tendo-se inscrito em várias agências de trabalho temporário, a Patrícia tinha turnos em diferentes localizações, o que significa que todos os dias podia estar em sítios diferentes a trabalhar com novas pessoas. Contava-me ela as aventuras que passou com a colega Grega rude, o cozinheiro Ucraniano, o manager Inglês e a colega francesa. Noutro sítio, contactou com Portugueses, Iranianos, Romenos e Mexicanos. Pode dizer-se que em quatro semanas deu a volta ao mundo.

2. Só nāo trabalhas se nāo quiseres

Estas agências de trabalho temporário  têm todos os dias dezenas e dezenas de turnos que tu podes escolher. O que nāo falta é trabalho, e eles estão constantemente a ligar a perguntar se estás disponível para trabalhar. A nós só nos resta ver quem dá mais.

3. Os ingleses bebem muito mais do que comem

Nestes eventos em que ela trabalhou, que incluiu uma churrascada de ricos num clube de ténis, uma inauguraçāo de um mercado Japonês ou um evento de caridade, a conclusão era sempre a mesma: a comida toma um plano secundário em relação à bebida. Os ingleses passam-se sempre que vêem um bar aberto e a sede é tanta que se esquecem de comer. Quem sofre é a Portuguesa que, (sempre) cheia de fome, vê a comida a ser ignorada e só deseja poder picar.

4. O tempo não é assim tão mau

Eu digo isto sempre, mas de facto ela teve sorte a mais este mês. Está um calor que nunca se viu nesta terra, e apesar disso ser fantástico, para quem tem de andar de transportes ainda por cima de fato preto e camisa torna-se num inferno. Mesmo assim, deu para aproveitar estar na minha varanda, ir dar umas voltas à beira rio e ate molhado os pés no mar num domingo em Southend.

5. Podes abrir uma conta bancária em cinco minutos pelo sofá

“Este país não é normal”, dizia-me ela incrédula quando lhe abrimos uma conta bancária online enquanto estávamos no sofá. Tudo o que ela teve de fazer foi fazer download do app Monzo, gravar um vídeo e tirar uma foto do cartāo de cidadāo. Passados cinco minutos, tinha conta bancária no Reino Unido e já podia começar a ser paga.

6. Um mês em Londres são seis em Portugal

Em quatro semanas esta miúda aprendeu mais, trabalhou mais e cresceu mais do que em vários meses no nosso rico país. O ritmo aqui não pára, e todos os dias são um desafio. Tenho a certeza que ela sai daqui com outra maneira de encarar a vida, e ainda mais determinada a safar-se no Direito porque esta vida em catering não é para ela. Em nota pessoal, estou mesmo orgulhosa desta miúda que podia ter passado o mês na praia mas quis vir trabalhar, disponível e com vontade para fazer o que fosse preciso (salvo seja).

Muitas outras aventuras aconteceram neste mês, como nós a gritarmos uma com a outra no meio da rua, ela perder-se várias vezes (uma delas porque lhe pus mal a morada no Cittymapper) ou quando quase desmaiava no metro com tanto calor.

E nem tudo foi fácil (ou quase nada, diria eu). A miúda teve de ir a dois dias de treino em que teve de aprender a abrir garrafas e a levantar pratos (amigos da Patrícia, preparem-se para o show que ela vai dar em jantares lá em casa a partir de agora), teve de ir ao centro de emprego candidatar-se para um numero de segurança social e teve de nos aturar enquanto o meu namorado recuperava de uma operação (e até lhe fez sopinha no dia que ele teve alta). Por isso, obrigada Ticinha, gostámos muito de te ter cá. Apesar de me teres roubado roupa, proibido de usar alguma dela, tentares mandar no que visto, obrigares-me a limar as unhas (odeio) e de seres uma miniatura de ditadora assim na vida em geral.

O que eu aprendi é que sou uma irmã galinha do pior, constantemente preocupada e stressada, a querer saber onde ela anda, se já chegou ao trabalho, se se perdeu, se tem fome, etc e tal. Não preciso deste stress todo na minha vida. 

Como foi para mim estudar no IEJ, 10 anos depois

O IEJ era um sítio especial. E todos aqueles que lá estudaram sabem do que falo. Mais do que uma escola, foi o sítio onde passámos mais tempo durante oito anos (eu seis porque nunca me aguentei muito tempo num sítio).

Para aquela que foi a última geração antes dos telemóveis com dados e dos youtubers e instagramers, foi um espaço onde crescemos com rigor e exigência, mas também um sítio onde pudemos fazer todos os desportos que quisemos, onde tinhamos clubes de tudo e mais alguma coisa, onde tinhamos espaço para brincar.

Posso dizer com toda a certeza que todos aqueles que passaram por lá ainda hoje tem muito cuidado com o calçado que levam ao ginásio, depois de anos a passar pela ditadura da sapatilha limpa da Sónia.

Quando entrei para lá no meu 5º ano era uma miúda tímida (acreditem ou não) e com aquela cara de croma com óculos fundo de garrafa redondos, e por isso claro que fui alvo de miúdos parvos, ou como se diz hoje: de algum bullying.

Naquele ano, o que me valeu foi o meu primo Samuel, vários anos mais velho que eu e que me protegeu, à maneira dele. Comecei a passar os intervalos com ele, e tornei-me amiga dos amigos cool dele.

Quando tive de voltar à escola um ano mais tarde, depois daquele verão em que ele já não estava cá, as pessoas trataram-me com cuidado, e desviavam o assunto quando eu chegava. Ninguém teve coragem de me perguntar nada, apenas um miúdo que me veio dizer que eu devia de estar muito triste.

A escola, nesse meu 6º ano, decidiu fazer uma cerimónia em honra dele e de todos aqueles alunos que já não estavam connosco. Eram centenas de alunos, e dezenas de familiares. A minha família veio, e eu cheia de vergonha, subi as escadas tentando esconder-me na multidão, tentando ser só mais uma aluna. Mas a minha avó chamou-me e pediu para me sentar ao pé dela.

Acredito que tenha sido uma cerimónia muito bonita. A escolar estava lá em peso. Tenho ideia que foi um dia especial, e todos os que lá estiveram devem ter sentido isso. Mas eu… eu fechei-me no meu mundo e não me lembro de nada. Não vi nada, não ouvi ninguém, não pensei em nada. Sentei-me ali quieta, calada e distante, contando os minutos para aquilo acabar. E continuei assim quando à saída os alunos fizeram um corredor para os familiares passarem, e muitos choravam e eu ali em pânico, a sentir-me observada, como se todos tivessem à espera que eu (finalmente) quebrasse. Apesar de não ter estado lá (apenas fisicamente), guardo esta cerimónia como a coisa mais bonita que aquela escola já fez, e por isso o meu obrigada.

Quem me dera voltar atrás e viver aquilo tudo, e chorar e me abraçar aos meus amigos, e agradecer aos professors e alunos que organizaram aquilo com tanto carinho, pois não havia ninguém naquela escola que não adorasse o Samuel.

Para além disto, foi no IEJ que conheci alguns dos melhores amigos que tenho até hoje. Apesar de estar longe de todos, são aqueles que ficam para sempre, e quando estamos juntos é como se nada tivesse mudado.

Tantas horas passadas a dar voltas à escola, onde cada grupo tinha o seu spot reservado. Havia toda uma logística que todos respeitavam. Voltas e voltas e voltas que davamos naquela escola, não sei bem com que objectivo.

Ainda bem que vivemos nesta altura, longe dos telemóveis, porque já tinhamos distrações suficientes mas que envolviam estarmos uns com os outros. O lado pior é que não temos grandes fotos ou vídeos para recordar, mas os melhores momentos ficam para sempre.

Tenho a agradecer aos professores que ficaram amigos (principalmente a Paula), ao Diamantino pelo doutoramento em codrelhice, à Sónia pela habituação à higiene do calçado, à s funcionárias Clara e Filipa pela amizade e tratamento preferencial ao fazer-me as tostas mistas e a guardar-me os melhores bolos, e à melhor turma de sempre que conseguiu organizar o dia da dança, provavelmente o dia em que fui mais feliz na escola.

Uma escola tem de ser mais do que um sítio onde és obrigada a ir estudar, tal como hoje em dia o trabalho tem de ser mais do que uma obrigação para ganhar dinheiro.

Bicho irrequieto que sou foi incapaz de passar oito anos naquela escola, cercada por portões e câmaras e por todo o lado. No 11º ano fui-me embora e, apesar de não ter passado tanto tempo como gostaria com os meus amigos de lá, foi graças a esta mudança que estou onde estou agora. Tudo está conectado. Eu tinha de ir para a Batalha. Fez-me ver a vida por outra perspectiva, tive mais liberdade e soube lidar bem com ela, podia ter corrido pior mas os meus pais conhecem-me melhor que eu e sabiam que podiam confiar (sabiam que não me ia portar pior do que eles se portavam quando tinham a minha idade).

Apesar da Batalha ter sido a decisão certa para mim naquela altura, o IEJ foi o sítio onde cresci, onde começei a traçar a minha personalidade e a definir quem ia ser. Muito aconteceu depois disso mas a infância a mim cheira-me aos croissants do bar, à sopa da cantina, tem o som da campainha a tocar, do Diamantino a chamar-me Saulinha, do Pedro e dizer cheira a farófias, tem a imagem da Joana a ser fã dos Tokyo Hotel, do Jorge sempre a passar som, da Carolina a falar de malandrices, da Tatiana com o aparelho, da Simone a dizer-me para limpar os óculos, do Nuno adorar as aulas de filosofia, do Ochoa ler Fernando Pessoa para um monte de desinteressados, do professor Manel a dar-nos chapad(inhas) nas costas, da Aida pedir-nos para não falar na biblioteca, do professor jeitoso de voleibol onde andei só para o ver, do professor Moisés que era o professor mais fixe que aquela escola já teve, e de novo da Paula que conseguia ter aulas mega produtivas e ainda nos dar lições de vida, e ajudar-me a entrar na universidade.

Beijinhos com saudade a todos estes cromos. E por favor, se tiverem videos ou fotos partilhem!

Faz este ano uma década que me fui embora daquela escola, e não percebo como o tempo passa assim, mas fico feliz que os que interessam ficaram e estamos todo a curtir a vida.

A festa da terrinha

Amanhã começa a festa da minha terrinha. Desde pequena que este acontecimento é o mais importante na famosa Tremoceira. As terras de Portugal são curiosas porque cada uma tem direito à sua festa, em honra do seu padroeiro. Nunca tinha antes pensado neste aspecto peculiar das terras de Portugal. É suposto ser um acontecimento religioso, mas que nas ditas noites, há pouca santidade.

A festa demora meses a ser planeada. A maior parte da população colabora nos festejos, restando pouca gente para, de facto, celebrar. Por isso,há que atrair pessoas das terras à volta. A festa une a comunidade. Os miúdos arranjam cacos para a quermesse (exige muito mais trabalho e tempo do que se pode imaginar), os homens tratam do álcool e das bifanas, da música e da papelada; as senhoras idosas fazem bolos para vender, as de meia idade fazem comida e servem a mesa, os raparigas jovens e as solteiras ficam na sala de chá, onde servem o dito cujo e doces maravilhosos. E agora há a nova geração do pessoal de 20 e poucos anos que trata do after party com os DJ’s e as bebidas mais fortes.

Quando era mais pequena, o inicio de Setembro era altura de fazer umas madeixitas porque ia haver a festa. Era altura de comprar vestidos novos. Quando comecei a pertencer à quermesse era uma forma de me integrar no grupo dos “ grandes”. Passado uns anitos, quando já era uma dos “grandes”, passei a tomar conta daquilo. Era desculpa para ficar até mais tarde na festa. Depois há uma altura que já tenho autorização para ficar lá até querer porque, afinal, é a festa da terra. A festa pela qual esperamos o ano inteiro.

A festa é também uma forma de nos despedirmos do Verão. Estamos na nossa melhor forma: Agosto acabou mesmo agora e para trás estão férias, bronzes, boas formas físicas, amizades consolidadas e muitas histórias para contar.

É uma festa onde sabes que estás a ser controlada por toda a gente: pelas velhotas que vêem este fim de semana como uma fonte de muitas cusquices, pelos velhotes que gostam de ver as moças arranjadas, pelos pais e pelos tios, pelos amigos dos pais… Mas é um controlo temporário. Há medida que a hora avança, menos controlo há. Já podes beber uma cerveja sem correram rumores que és uma bebada; já podes tirar o casaco, dançar mais à vontade, e até mesmo cometeres a loucura de falar com rapazes à vontade.

Histórias engraçadas acontecem na festa da terrinha. Histórias que toda a gente acaba por saber no dia seguinte. E estes dias apenas voam rapidinho, e tu ficas o resto do ano a esperar que o primeiro fim de semana de Setembro chegue de novo. Não porque as férias de Verão estão a acabar, mas porque a despedida que temos é fantástica. A partir dai sabes que vais ver menos os teus amigos da terra, porque vais para a escolar e outros vão trabalhar e outros vão simplesmente ficar em casa. São quatro dias em que usas roupa nova, andas pela festa a sorrir e a cumprimentar toda a gente e tentas vender mais um bolinho mais uma rifa mais um sorteio de cartas à tia querida ou ao tio bebado.

É com pena minha que vou perder o segundo ano consecutivo das festas da minha terra. O meu colega de trabalho português dizia hoje “deixa lá, daqui a uns anitos já nem tem lembras quando é a festa”. Pois, I don’t think so! Vou sempre lembrar-me e vou sempre tentar (mais arduamente) ir.

Este ano, basta-me desejar que os meus queridos amigos se divirtam MUITO por mim, que os festejos tragam dinheirinho para a terra e que bebam muitas por mim!

[30 de Agosto de 2012]