Pessoas aparecem nas nossas vidas de diferentes formas. Acredito que ninguém aparece por acaso, e até hoje toda a gente que conheci me ensinou algo, me mostrou algo, ou até mesmo mudou algo em mim.
A pessoa que mais me tocou nos últimos tempos, porém, é alguém como nunca antes me tinha cruzado. Essa pessoa mostrou-me o que é a tristeza, o que é a solidão, o que é a injustiça. Ela mostrou-me que ainda existe muito mal no mundo e que, às vezes, por muito que querias ajudar, nada podes fazer.
Mito nunca me disse a idade dela. Eu só queria saber o seu dia de aniversário, para lhe comprar um presente. Ela tinha vergonha de dizer. Colegas disseram-me que ela apenas não gostava de celebrar nem queria que ninguém celebrasse.
Mito foi a pessoa mais triste e mais misteriosa que conheci até hoje.
Senhora japonesa, idosa, desgastada com a idade. Olhar triste, sorriso apagado, corpo dormente, torto e sujo.
Disse-me, um dia, na conversa mais emocionante que alguma vez tive e que me deixou de lágrimas nos olhos, que tinha vindo para Inglaterra há quarenta anos e nunca voltara ao Japão. Nunca mais viu a sua família. Acredito que poucas vezes tenha voltado a falar com eles. Não estava autorizada.
Hoje, Mito não sabe se estão vivos ou não. Os pais, morreram pela lógica dos anos, mas ela nem essa noção tem. Possivelmente quer acreditar que eles ainda existem, apenas não à sua vista. Não sabe sequer se teria alguma família à sua espera no Japão, daí também nunca ter voltado. Mesmo se quisesse, não podia.
Tinha vinte anos quando disse adeus ao seu país e nunca olhou para trás. A família era contra. Mito foi atrás de um sonho, ia ser empregada de uma prestigiada família japonesa em Londres.
Demorou meses a chegar a Inglaterra, conta-me ela com um sorriso nostálgico, de quem relembra a viagem da sua vida. Viajou de país para país, de autocarro e de comboio. Atravessou o mundo por estes meios. Contava-me ela cada paragem. Lembrava-se de cada pormenor da viagem. Deve pensar nela todos os dias.
A sua patroa era uma cabeleireira num salão de luxo, especialista em cabelo japonês e permanentes. Famosa, contaram-me. Mito tornou-se a sua assistente, e com o tempo tornou-se também ela numa cabeleireira, mas sempre na sombra da sua patroa. Senhora Yokomoto, da alta sociedade japonesa, imperatriz, cruel.
Quando Yokomoto decidiu reformar-se, Mito continuou a fazer as suas clientes. Com o tempo, quase todos os clientes morreram de velhice. Mas ela continua ali, marreca, cansada, com dores, e de sorriso apagado. O ordenado não vai para ela, vai todo para a sua “dona”. Mito recebe cama e comida, nada mais. Depois de fazer os clientes da patroa, as lides domésticas esperam por ela em casa até de madrugada.
Todos os dias, quando Mito acaba o trabalho, eu tinha de ligar para a patroa e dizer que a Mito acabara o trabalho nesse momento e que se ia embora . Ao princípio não percebi o porquê deste telefonema ter de ser obrigatório e o porquê de não poder ser a Mito a falar. Depois foi-me explicado: se não ligássemos nós, a patroa pensaria que Mito tinha ido passear e não trabalhara. Assim podia calcular o tempo de ela chegar a casa e ter a certeza que ela não ia a lado nenhum. Uma vez disse ao telefone “she is going now home”. Mito ficou com os olhos muito abertos e disse-me “não podes dizer isso, já vou ouvir quando chegar. Ela diz que eu não vou para casa porque aquela não é a minha casa”.
Lembro-me de Mito a dormir em cima da comida dela. Lembro-me de a acordar lentamente, e ela ficar embaraçada, explicando que esteve a esfregar o chão e as paredes até as cinco da manhã. Disse-me uma vez que tinha de lavar as paredes todos os dias, e se a patroa decidia, mais que uma vez. Passava noites em claro a jardinar, a pintar janelas, a esfregar o chão.
As suas mãos estão pretas, secas, quase a cair. As suas costas estão completamente tortas, e Mito anda em forma de corcunda.
O que Mito passa há quarenta anos é pura escravidão, algo que me chocou por vivermos em pleno século XXI, de estarmos num país desenvolvimento e de ela trabalhar num salão supostamente de luxo.
“Mas nunca ninguém a tirou daquela vida? Ninguém fez frente a patroa?” perguntei eu uma vez a alguém.
“As clientes dela ao longo dos anos quiseram tirá-la de la, contratá-la, mas ela rejeitou sempre. Tinha medo da senhora Yokomoto.”
Mito mal sabe inglês, mesmo vivendo cá há quarenta anos. Os seus clientes são japoneses e quando tem uma hora livre é em ChinaTown que se refugia, a beber e a fumar. É difícil de a perceber, e muitas vezes quando lhe perguntava como estava ela respondia com um suspiro “tired. Cleaning cleaning. All night”.
Disseram-me que Mito passa muitas noites a beber. Não me admira, mas preocupa-me. Criei uma amizade especial com aquela senhora, que toda a gente naquele sítio se habituou a ignorar.
Ela corta e pinta o cabelo a ela própria porque não quer chatear ninguém e ninguém quer saber. Uma vez pintei-lhe o cabelo, lavei-o bem e sequei-o. Agradeceu-me emocionada o dia inteiro. Fi-la feliz naquele dia. Ficou tudo chocado com a minha atitude a partir daí toda a gente lhe queria arranjar o cabelo. Uma vez, uma das cabeleireiras cortou-lhe o cabelo como deve ser e ela ficou bonita.
No dia a seguir, Mito apareceu com o cabelo completamente arruinado e estava horrível. Yokomoto ficou com ciúmes e cortou-o de modo horrível e assimétrico. Mito chorava com pena dela própria e eu com pena dela.
Ela é muito pegada às coisas antigas, principalmente japonesas, mostrando as saudades que tem de casa. Fazia coleção de fotos da sua juventude, a postais com decorações japoneses, amostras de perfumes, tudo e mais alguma coisa. Uma vez chegou ao trabalho ainda mais triste que o normal. Contou-me que a patroa a tinha mandado por todos os seus pertences no lixo. Foi tudo para o lixo. Apenas salvou algumas amostras de perfume, que nos ofereceu, porque se a patroa as visse iam também para o lixo. Todas as fotos, todas as memórias, foram para o lixo porque a patroa quis.
Mesmo assim, Mito fazia-nos massagens quando via que estávamos com dores. Não queria massagens de volta, embora o corpo dela esteja completamente quebrado. Mesmo assim, ofereceu postais de natal a toda a gente, e estava constantemente a oferecer-me noodles e arroz japonês.
Os dois ou três dias que ela vai trabalhar no salão são os melhores dias da vida dela. Muitas vezes me pedia para dizer à patroa que tinha clientes até mais tarde só para poder ficar lá mais um bocado (a dormir e a fumar).
Desde que saí do salão, a pessoa que mais sinto falta é da Mito. A vida dela é uma completa solidão, e a solidão é a coisa de que tenho mais medo.
Tenho respeito por ela, e tenho muitas saudades dela. Preocupo-me com ela e penso nela mais vezes do que qualquer outra pessoa pensa, e isso é extremamente triste.
Quero honrar esta senhora, e um dia gostava de escrever um livro sobre a sua história completa. A sua viagem do Japão até Inglaterra, a sua vida nos últimos quarenta anos. Tenho a certeza que ela nunca consentiria tal coisa, mas este texto é uma forma de a honrar, e de, a partir de agora, mais alguém conhecer a sua história, e respeitá-la.
[23 de Março de 2013]