O lado escuro da cidade cinzenta

Londres pode ser muitas vezes um lugar frio (não estou a falar da temperatura porque isso e obvio), solitário e vazio. Cada um anda por si, ninguém se preocupa com ninguém. Cada um faz a sua viagem sem reparar em ninguém. Nesta cidade tu es apenas mais um ser invisível. Es apenas um numero numa empresa qualquer em que nem sabes quem paga o teu ordenado, em que as pessoas com quem trabalhas mesmo que sejam simpáticas (quase) nunca serão (verdadeiramente) tuas amigas, onde a tua familia não vive junta, onde tens de partilhar casas com pessoas que não conheces, onde tens de te sentar num lugar onde hoje provavelmente milhares de pessoas se sentaram, onde sabes que nunca serás ninguém importante, que nunca veras a pessoa que esta a tua frente no metro jamais para o resto da tua vida. Não vale a pena seres simpática. Ninguém quer saber de ti. Ninguém te recompensa por fazeres um bom trabalho ou ficares a trabalhar mais uns minutos. Mas irão cair-te em cima no momento em que fizeres um mínimo descuido. E uma cidade em que não podes falhar em nada. Sabes que nunca poderás chegar atrasada a nada. Sabes que deves estar nas escadas sempre pelo lado direito, sabes que não deves tentar entrar no metro quando a porta tiver a fechar, sabes em que lado da calcada deves andar. E engraçado como as pessoas sabem como andar todas do mesmo sentido, fazer a curva da mesma maneira, tudo a um ritmo para que ninguém atrapalhe ninguém. Visto de cima, somos formigas a fazer filinha pirilau a 300 a hora. So os turistas e que estragam este sistema todo, e so atrapalham o pessoal (eu que o diga, que trabalho da Oxford Street). E uma cidade onde não vês ninguém a sorrir. Onde não vês ninguém a meter conversa com ninguém. Onde es tu por ti própria.

Esta e uma cidade que toda a gente ama, toda a gente gosta ou sonha visitar. E uma cidade com eventos, concertos, exposições, teatros todooos os dias, sem falha, onde a vida não para e tu acompanhas. Mas pode ser cinzenta, pode fazer-te sentir sozinha e fazer-te sentir que se perdes o ritmo estas tramada. Não importa o quanto cansada estejas, a quantidade de merdas que tiverem a acontecer na rua vida. a vida não para e e sempre em velocidade maxima. E hoje foi mais um dia assim.

[17 de Novembro de 2012]

Escrita criativa

No semestre passado tive uma cadeira de Escrita Criativa. Todas as semanas tínhamos de escrever algo relacionado com o tópico dessa semana na aula. Depois, tínhamos de ler diante da turma. Nessa semana calhou-me a mim apresentar a turma. Tinha de escrever algo sobre alguém que já tivesse partido. Pensei em alguém famoso. Pensei na minha avó ou no meu primo. Mas depois tive outra ideia. Aqui fica o texto traduzido para português:

“Morri há 22 anos atras. Eu sabia que ia morrer e achava que não merecia. Antes de morrer sabia que o meu marido estava com outra mulher, a minha empregada. Não queria saber porque estava quase a morrer e tinha coisas mais importantes para lidar: o meu filho de três anos, os meus irmãos, os meus pais. Eu não devia ter morrido. Desde então, a minha familia sofre em silêncio. Posso ver tudo de onde estou. Infelizmente, não posso fazer nada.

Depois de ter vindo para a casa de Deus, pedi-lhe que me enviasse de volta para a minha familia. Ele sabia a boa pessoa que eu tinha sido em vida. Ele disse que em três anos eu iria voltar a casa. Depois desses três anos, o meu irmão mais velho teve uma filha. Ela tem o meu sorriso, a minha bondade. Ela tem a minha paciência e sofre em silêncio como eu sofria. Ela ajuda a família e era a melhor amiga da minha mãe tal como eu era. Eu agradeci a Deus porque ele fez o que eu pedi.

Deus decidiu dar-me de volta o meu filho, 14 anos depois. Foi difícil para a minha família e foi difícil para mim. Eu sei que ele não lutou ao máximo para sobreviver depois do acidente porque ele queria vir ter comigo. Em vida, a minha sobrinha cresceu com as qualidades do meu filho. Ele deu-lhe as suas melhores partes. Desta maneira, o meu irmão ficaria com algo nosso.

A minha sobrinha foi feita para ficar algo nosso em Terra. Mas eles sofrem. Eles tem doenças e acidentes. O meu filho morreu com 17 anos. A minha mãe morreu um ano depois. Eu não me culpo, mas eu não devia ter morrido. A minha leucemia não morreu comigo. Foi transmitida para a minha mãe. Espero que tenha morrido com ela.

Felizmente, o meu irmão casou-se com uma mulher fantástica. Eu apenas a conheci 3 anos antes de ter morrido, mas ela passou todo o namoro deles em hospitais. Ela levou-me para todas as sessões de quimioterapia. Ela prometeu-me que iria tomar conta da minha família. E ela fez. Apoiou o meu irmão, a minha mãe e deu vida à minha sobrinha.  E a famiíia dela trouxe felicidade a minha. Ela é forte. Graças a ela o meu irmão aguentou tudo o que lhe aconteceu.

A minha sobrinha é uma mistura de todas as coisas más e boas das duas famílias. É forte e feliz como a mãe. Sossegada e inteligente como o pai. Bondosa como eu. Infelizmente, tem os meus problemas de sangue, os problemas de costas da mãe, os problemas de fígado do pai, os problemas de nervos como a avó.

Eu morri e ela nasceu. Acredito nisso. Ela sabe disso. O mundo só tinha espaço para uma de nós. Então eu deixo uma mensagem para ela: o meu filho está bem. Ele está comigo. Eu sei que provavelmente tu não acreditas mas quando ele morreu ele não desapareceu. Ele veio ter comigo, para me conhecer melhor. Mas ele ama-te e protege-te. Ele observa-te. Eu sei que sentes a falta dele e não percebes por que é que ele teve de ir, mas Deus está a tornar-te forte.”

 

A minha tia morreu 3 anos antes de eu nascer. Nunca a conheci. Neste texto, resolvi fazer algo diferente. Escrevi como se fosse ela a falar. Escolhi uma abordagem católica porque associo-a ao Céu. O meu professor disse, no final, que nunca ninguém tinha apresentado um texto assim. Deu-me os parabéns pela escrita mas principalmente pela coragem.

Confesso que estava a tremer. Tive de ler isto em voz alta, em inglês, em frente a uma turma de 20 e tal pessoas. O silencio era pesado. O texto gerou discussões. Todos me perguntaram se a história era real e quiseram saber mais. Eu fiz questão de explicar que o que está no texto não transmite a minha opinião das coisas, muito menos do que se diz de mim, muitas coisas foram pensadas para o propósito da escrita. Não quis que ninguém tivesse pena de mim porque coisas más acontecem a todas as famílias, e estas sobrevivem e reencontram a felicidade (nos somos muito felizes).

[26 de Setembro de 2012]

Os jovens e a religião

Este é um assunto que me tem posto a pensar nos últimos tempos.

Com tudo o que já aconteceu ao longo destes anos na minha família e comigo, sinto necessidade de pertencer a algo superior a mim. Sei que em muitas situações da vida ninguém me pode ajudar senão eu a mim mesma, e nesses momentos sinto necessidade de acreditar em algo maior que eu.

Acredito em Deus e respeito-o. Não sei o que significa ao certo. Não sei todas as especificidades deste Ser. A minha família e cristã católica e considero-me cristã também. Não sou praticante assídua mas quando sinto que preciso alguma ajuda espiritual procura à Igreja. Fui duas vezes à Igreja desde que cá estou. A primeira foi quando andava à procura de trabalho. A entrevista era dali a uma hora e vi uma igreja. Entrei. Não era católica, era ortodoxa, mas acredito que Deus esteja em todo o lado e não Se importa de eu onde esteja. Rezei, pedi para que me ajudasse a encontrar trabalho rapidamente, que a entrevista corresse bem. Não correu. Era para trabalhar num pub, fiquei uma noite à experiencia e não voltei porque odiei.

A segunda vez foi há pouco tempo. Andava triste e desanimada, e soube que uma senhora de quem gostava muito em Portugal faleceu. Pedi o dia a seguir de folga e fui com o Sérgio a uma Igreja Católica italiana. A missa era em italiano, por isso pouco ou nada percebi, mas o tempo que estive ali senti-me em paz. Senti-me bem por pertencer a um grupo que está presente por todo o Mundo. Muitas das pessoas na missa não sabiam italiano. Mas sabiam que o crucifixo na parede significa amor. Sabem que a hóstia é parte de Deus.

Os jovens da minha idade não querem saber disto. A missa é uma seca. A catequese é uma seca. Eu também já achei a catequese uma seca. Até que percebi que aquele encontro semanal tinha proporcionado novas amizades, a formação de indivíduos com uma fé e um espaço em que podias aprender algo diferente. E ter catequistas cativantes, interessantes e amigas ajudou também. A missa ao Domingo de manhã não tem jovens porque o Sábado à noite não é para ficar em casa para acordar cedo no dia a seguir. Compreendo. Não acho que temos de ir à missa sempre. Eu vou à missa quando sinto que preciso e que quero ir. Em Portugal, muitas das missas não são cativantes. Porquê? Falta novo sangue. Faltam mais jovens a tocar instrumentos e a cantar. Falta vontade.

Os jovens têm vergonha de dizer que vão à missa. Hoje vinha um artigo no jornal The Independent com o título “I have a confession to make: I go to church”. Foi este artigo que me fez escrever isto hoje. As pessoas têm vergonha porque acham que é coisas de velhos. Eu não acredito em tudo o que a bíblia diz. Sei que muitas passagens da bíblia são mitos, são metáforas para a vida. Todas as religiões contam-nos histórias que têm a sua fantasia ou que nunca vamos saber se foi assim mesmo. Mas não é assim em tudo à nossa volta? Até mesmo em relação de como estamos aqui? A bíblia ensinou-me que é importante ajudar o outro, que vale a pena ser bom e que quando estamos em dificuldades, algo de bom irá sempre acontecer porque nós merecemos (mesmo quando isso tarda em vir).

Não me vou alargar mais. Textos longos não agradam a muita gente mas eu tenho sempre muito a dizer e se este é o meu blog eu vou escrever aquilo que tenho a dizer. Quem não quiser, não leia. Quero apenas agradecer às catequistas que me souberam cativar (especialmente Maria e Eugenia), aos bons amigos que fiz na Igreja e aos bons momentos que tivemos na Igreja. E a ti se leste

[26 de Setembro de 2012]

A festa da terrinha

Amanhã começa a festa da minha terrinha. Desde pequena que este acontecimento é o mais importante na famosa Tremoceira. As terras de Portugal são curiosas porque cada uma tem direito à sua festa, em honra do seu padroeiro. Nunca tinha antes pensado neste aspecto peculiar das terras de Portugal. É suposto ser um acontecimento religioso, mas que nas ditas noites, há pouca santidade.

A festa demora meses a ser planeada. A maior parte da população colabora nos festejos, restando pouca gente para, de facto, celebrar. Por isso,há que atrair pessoas das terras à volta. A festa une a comunidade. Os miúdos arranjam cacos para a quermesse (exige muito mais trabalho e tempo do que se pode imaginar), os homens tratam do álcool e das bifanas, da música e da papelada; as senhoras idosas fazem bolos para vender, as de meia idade fazem comida e servem a mesa, os raparigas jovens e as solteiras ficam na sala de chá, onde servem o dito cujo e doces maravilhosos. E agora há a nova geração do pessoal de 20 e poucos anos que trata do after party com os DJ’s e as bebidas mais fortes.

Quando era mais pequena, o inicio de Setembro era altura de fazer umas madeixitas porque ia haver a festa. Era altura de comprar vestidos novos. Quando comecei a pertencer à quermesse era uma forma de me integrar no grupo dos “ grandes”. Passado uns anitos, quando já era uma dos “grandes”, passei a tomar conta daquilo. Era desculpa para ficar até mais tarde na festa. Depois há uma altura que já tenho autorização para ficar lá até querer porque, afinal, é a festa da terra. A festa pela qual esperamos o ano inteiro.

A festa é também uma forma de nos despedirmos do Verão. Estamos na nossa melhor forma: Agosto acabou mesmo agora e para trás estão férias, bronzes, boas formas físicas, amizades consolidadas e muitas histórias para contar.

É uma festa onde sabes que estás a ser controlada por toda a gente: pelas velhotas que vêem este fim de semana como uma fonte de muitas cusquices, pelos velhotes que gostam de ver as moças arranjadas, pelos pais e pelos tios, pelos amigos dos pais… Mas é um controlo temporário. Há medida que a hora avança, menos controlo há. Já podes beber uma cerveja sem correram rumores que és uma bebada; já podes tirar o casaco, dançar mais à vontade, e até mesmo cometeres a loucura de falar com rapazes à vontade.

Histórias engraçadas acontecem na festa da terrinha. Histórias que toda a gente acaba por saber no dia seguinte. E estes dias apenas voam rapidinho, e tu ficas o resto do ano a esperar que o primeiro fim de semana de Setembro chegue de novo. Não porque as férias de Verão estão a acabar, mas porque a despedida que temos é fantástica. A partir dai sabes que vais ver menos os teus amigos da terra, porque vais para a escolar e outros vão trabalhar e outros vão simplesmente ficar em casa. São quatro dias em que usas roupa nova, andas pela festa a sorrir e a cumprimentar toda a gente e tentas vender mais um bolinho mais uma rifa mais um sorteio de cartas à tia querida ou ao tio bebado.

É com pena minha que vou perder o segundo ano consecutivo das festas da minha terra. O meu colega de trabalho português dizia hoje “deixa lá, daqui a uns anitos já nem tem lembras quando é a festa”. Pois, I don’t think so! Vou sempre lembrar-me e vou sempre tentar (mais arduamente) ir.

Este ano, basta-me desejar que os meus queridos amigos se divirtam MUITO por mim, que os festejos tragam dinheirinho para a terra e que bebam muitas por mim!

[30 de Agosto de 2012]