A festa da terrinha

Amanhã começa a festa da minha terrinha. Desde pequena que este acontecimento é o mais importante na famosa Tremoceira. As terras de Portugal são curiosas porque cada uma tem direito à sua festa, em honra do seu padroeiro. Nunca tinha antes pensado neste aspecto peculiar das terras de Portugal. É suposto ser um acontecimento religioso, mas que nas ditas noites, há pouca santidade.

A festa demora meses a ser planeada. A maior parte da população colabora nos festejos, restando pouca gente para, de facto, celebrar. Por isso,há que atrair pessoas das terras à volta. A festa une a comunidade. Os miúdos arranjam cacos para a quermesse (exige muito mais trabalho e tempo do que se pode imaginar), os homens tratam do álcool e das bifanas, da música e da papelada; as senhoras idosas fazem bolos para vender, as de meia idade fazem comida e servem a mesa, os raparigas jovens e as solteiras ficam na sala de chá, onde servem o dito cujo e doces maravilhosos. E agora há a nova geração do pessoal de 20 e poucos anos que trata do after party com os DJ’s e as bebidas mais fortes.

Quando era mais pequena, o inicio de Setembro era altura de fazer umas madeixitas porque ia haver a festa. Era altura de comprar vestidos novos. Quando comecei a pertencer à quermesse era uma forma de me integrar no grupo dos “ grandes”. Passado uns anitos, quando já era uma dos “grandes”, passei a tomar conta daquilo. Era desculpa para ficar até mais tarde na festa. Depois há uma altura que já tenho autorização para ficar lá até querer porque, afinal, é a festa da terra. A festa pela qual esperamos o ano inteiro.

A festa é também uma forma de nos despedirmos do Verão. Estamos na nossa melhor forma: Agosto acabou mesmo agora e para trás estão férias, bronzes, boas formas físicas, amizades consolidadas e muitas histórias para contar.

É uma festa onde sabes que estás a ser controlada por toda a gente: pelas velhotas que vêem este fim de semana como uma fonte de muitas cusquices, pelos velhotes que gostam de ver as moças arranjadas, pelos pais e pelos tios, pelos amigos dos pais… Mas é um controlo temporário. Há medida que a hora avança, menos controlo há. Já podes beber uma cerveja sem correram rumores que és uma bebada; já podes tirar o casaco, dançar mais à vontade, e até mesmo cometeres a loucura de falar com rapazes à vontade.

Histórias engraçadas acontecem na festa da terrinha. Histórias que toda a gente acaba por saber no dia seguinte. E estes dias apenas voam rapidinho, e tu ficas o resto do ano a esperar que o primeiro fim de semana de Setembro chegue de novo. Não porque as férias de Verão estão a acabar, mas porque a despedida que temos é fantástica. A partir dai sabes que vais ver menos os teus amigos da terra, porque vais para a escolar e outros vão trabalhar e outros vão simplesmente ficar em casa. São quatro dias em que usas roupa nova, andas pela festa a sorrir e a cumprimentar toda a gente e tentas vender mais um bolinho mais uma rifa mais um sorteio de cartas à tia querida ou ao tio bebado.

É com pena minha que vou perder o segundo ano consecutivo das festas da minha terra. O meu colega de trabalho português dizia hoje “deixa lá, daqui a uns anitos já nem tem lembras quando é a festa”. Pois, I don’t think so! Vou sempre lembrar-me e vou sempre tentar (mais arduamente) ir.

Este ano, basta-me desejar que os meus queridos amigos se divirtam MUITO por mim, que os festejos tragam dinheirinho para a terra e que bebam muitas por mim!

[30 de Agosto de 2012]

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