Muito se tem falado do Reino Unidos nestes últimos meses. Seja pela decisão de sair da União Europeia em Junho ou pela recente reportagem sobre a Segurança Social e sistema de adoção. [Texto escrito há um ano mas ainda se aplica.]
Obviamente que teria aqui muito por onde opinar, e até dados que pudessem informar algumas pessoas que acreditam em tudo o que lhes é dado, mas hoje apetece-me escrever sobre o outro lado.
Afinal, porque é que tanta gente, e cada vez mais, vive e gosta de viver aqui?
As pessoas adoram o drama, e às vezes os próprios emigrantes gostam de se fazer coitadinhos. Mas se fosse assim tão mau, porque continuam aqui?
Estou aqui na minha hora de almoço numa agência de comunicação em que, em mais de 65 pessoas, conto 5 serem estrangeiras (eu incluída). Normalmente não é assim: em quase todos os sítios onde trabalhei sempre tiveram muitas outras nacionalidades.
Na quarta feira uma colega muito querida fez anos, e na minha empresa temos o nosso aniversário de folga. Ao perguntar-lhe o que tinha feito, ela disse: fui ao museu com o meu pai. E é isto que me fascina nos ingleses. Ela podia ter ido às compras, podia ter ficado a preparar mega festa ou apenas a fazer nenhum, mas foi a um museu na cidade onde vive há 28 anos, a um museu que já tinha ido vezes sem conta.
Porque é que os ingleses me fascinam tanto para além de passar o aniversário no museu?
Gosto da forma como trabalham. No meu trabalho, cada um sabe o seu papel e como o executar. Ninguém tenta passar o trabalho para os outros, ninguém refila se tivermos de começar mais cedo ou ficar até mais tarde. Ninguém refila se tivermos de ir a um evento de trabalho a noite, e ter de estar novamente no escritório antes das 9 da manhã no dia seguinte.
Gosto de como adoram conversar mas como guardam o privado para eles. Eles não perguntam quanto ganhas, não falam de problemas monetários nem da família em muito detalhe. São os reis das conversas de circunstância e das amizades superficiais. Acho que às vezes ganhava mais se fosse um bocado mais assim.
Gosto da forma como são educados até nas pequenas coisas, ao pedir algo no supermercado ou no café dizem sempre “can I please have” ou “may I have”. Era impensável chegar a um sítio e dizer “it’s a coffee” ou simplesmente “ a coffee”. Dizem obrigada para tudo e mesmo no trabalho, se o teu patrão te diz para fazer alguma coisa, ele não manda. Ele diz “can you please do this if you don’t mind”. Mesmo que ele no fundo não esteja a pedir.
Há organização em tudo. Eles organizam copos com amigos com 3 meses de antecedência, e compram agendas do ano seguinte em Agosto, e marcam as férias um ano antes. Para uma control-freak como eu, isto e o paraíso.
Gosto da forma como admiram aqueles que são de outro lado e escolheram viver aqui. Tentam saber a razão, a tua história de vida, e sobre a tua cultura. Mesmo que isto seja um interesse meio fingido, porque no fundo no fundo, não querem saber de ti para nada.
Gosto da forma como as camadas jovens interessam-se pela política, pelo futuro do seu país, como assinam petições e participam em protestos.
Gosto de ver as trocas de emails quando há problemas, e de observar a forma como tomam conta da situação. Se em Portugal ia haver logo molho ou alguém ia ter problemas, aqui troca-se uns “I understand your point but you might consider this…” ou “that sounds good but please consider this as well..”
Gosto como a cidade funciona com um sistema infalível, as pessoas andam na rua quase em passo de marcha, há um sistema para te movimentares tão automático que percebes quem é daqui e quem está de passagem. Os turistas mudam a ordem das coisas e é por isso que eles não tem paciência para eles (nem eu).

Acho engraçada da forma como, no fundo, eles odeiam confrontação e preferem sorrir e dizer obrigada do que mandar algo para trás.
Gosto da cultura em que os filhos vivem em casa dos pais até arranjarem um trabalho, e depois vão-se embora. Acho que devia ser assim em mais sítios. Fazem-se à vida, pedem uns trocos emprestados quando a coisa ta apertada mas depois devolvem. E os pais não sentem aquela obrigação de que tem de tomar conta dos filhos até à morte como em Portugal. Sentem que fizeram a parte deles até ao fim da educação dos filhos e depois deixam-nos ir lutar pelas coisas por eles próprios.
Com o tempo, tu adaptas-te ao modo frio e distante destas pessoas, aquela falsidade intocável. Ela está lá mas tu não a consegues ver explicitamente.
Eu porque sou descarada e sincera, já expliquei a vários deles esta falsa simpatia que nós sabemos que eles têm, esta forma exagerada de adicionar mais palavras na frase do que é preciso para pedir algo simples. Eles olham para mim muito incrédulos e dizem que só tentam ser simpáticos.
Claro que depois temos as excepções (o pessoal que se vê no Algarve não será todo assim) e claro que há coisas que não gosto tanto.
Vivo num constante dilema se determinada pessoa gosta mesmo de mim ou é tudo falsidade, ou o que é que realmente pensa.
Mas depois há aqueles ingleses, os meus preferidos, que dizem tudo o que lhes passa pela cabeça com aquele sarcasmo tão característico. Os ingleses usam o sarcasmo como substituto da verdade, utilizando-o para dizerem aquilo que realmente pensam. E esse sarcasmo pode muita vez ser cruel, forte, mas também brilhante pela sua inteligência e perspicácia.
É difícil criar amizades com os ingleses, e contam-se pelos dedos aqueles que considero mesmo mesmo amigos. O Jack, um dos melhores que tenho, admite que eu sou a única amiga que ele tem estrangeira.
É compreensível. Eles têm os ciclos de amigos já formados desde a escola ou universidade, tal como nós em Portugal, e é difícil infiltrar esse circuito. Mas quando consegues infiltrar, é muito giro. Encontros marcados com um mês de antecedência, a preferência de encontros líquidos (sem comida) do que uma bela jantarada, e a forma como falam horas sobre mil coisas sem revelarem grande coisa deles próprios.
Inevitavelmente, tu começas a apanhar tiques do bife. Para mim, o que mais gosto é o horário das saídas daqui. Uma noite louca acaba no máximo às 2 ou 3. Uma boa noite acaba à meia noite, e uns copos normais acabam às 9/10. Jantas cedinho e vais para a cama cedinho. Já me habituei a isto de tal forma que em Portugal, se começar a jantar depois das 20:30, já não consigo comer nada, simplesmente não desce!
Se quiserem perceber melhor a cultura inglesa, recomendo vivamente o livro “Bifes mal passados” do João Magueijo. Simplesmente brilhante.





Amei. Concordo com tudo. Fui viver para Londres em 2011 mas os óculos cor-de-rosa que colocava sempre que vinha de férias a Portugal, fizeram-me decidir a voltar ao fim de 4 anos. Estou tão arrependida….